sexta-feira, 10 de junho de 2011

Recordar para Viver - Mais e Melhor!


Houve uma época em que eu podia dedicar-me um dia por semana a atividades voluntárias, então passei a visitar um asilo da Cáritas. Muitas coisas pude ver, um tipo de creche para pessoas idosas que não podiam mais ficar sozinhas em casa. Pela manhã, passava um carro apanhando os velhinhos e, à tardinha, ia-os deixar, ou vinha algum parente buscá-los. Lendo um artigo sobre demências e Alzheimer, lembrei-me de minha reação quando encontrei, neste asilo, uma senhora miudinha que muito me chamou a atenção. Doutora duas vezes havia sido, catedrática em Filosofia também, e agora ali, sentada a uma mesa com uma esferográfica na mão, rabiscando jornais e revistas como fazem jovens pequeninos na Pré-Escola, com a sutil diferença de que nem mais do próprio nome conseguia recordar. Aquela imagem me chocou. Fiquei pensando sobre a vida, as voltas que ela dá, e como cada um de nós se acaba. Naquela senhora magrinha, miñon, cabelos brancos e ralos, não se via vestígio do passado que uma enfermeira acabara de me contar. Pela gravidade da doença, esta senhora vivia no asilo, não pertencia mais ao grupo dos que vinham, passavam o dia e voltavam para casa no final. E no jornal de hoje, encontrei algumas dicas para retardar o Alzheimer que, mais cedo ou mais tarde, quanto mais um ser humano consiga viver, dizem os especialistas, maior é a probabilidade de que acabará desenvolvendo. Ler, escrever, conversar interessadamente com pessoas, fazer cursos, exercitar o corpo e estar sempre tentando aprender coisas novas mantêm o cérebro ativo e podem ajudar a retardar o aparecimento das demências. Ocupar-se com música, poesia (escrevendo ou decorando versos), tentar lembrar-se de números de telefone ao invés de consultar sempre a agenda, fazer compras sem olhar para a lista ou contas de cabeça, e, sobretudo, leitura e recordações. Dizem que recordar é viver e, de acordo com as descobertas de mais recentes estudos sobre Alzheimer, recordar é o que mantém vivas as células cerebrais, podendo funcionar como uma verdadeira fonte da juventude. Quem diria, da fonte não jorra água, e sim, recordações. Se necessariamente boas, ou más, nada diz a matéria, o importante é recordar, recordar para viver.




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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 09/06/2011
Código do texto: T3023833






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