sábado, 26 de fevereiro de 2011

A visita do meu amigo príncipe e o ser olhar-de-canhão


“Pegar carona nessa cauda de cometa
Ver a Via Láctea, estrada tão bonita
Brincar de esconde-esconde numa nebulosa
Voltar pra casa em nosso lindo balão azul...”

Trecho de Lindo Balão Azul, Guilherme Arantes.

Outro dia, meu amigo príncipe veio me visitar. Há tempos ele não vinha. E como combinado, fui esperá-lo na estação mais próxima aqui de casa. Viajar em cometas amedronta muita gente. Não devia ser assim, já que é como andar num Zeppelin: uma imensa bola de gás em movimento. Um meio de transporte seguro, só que é preciso ter muito cuidado na hora de aterrissar: os passageiros têm que saltar depressa,  para que não aconteça o que se deu com o Hindenburg, em 1937, que, pela lerdeza da primeira classe (Ops!, ou teria sido o Titanic? Não importa agora...), queimou até o grão ao chegar ao destino, Lakehurst, Estados Unidos. Pensou-se em acidente ou atentado, mas meu amigo tem outra versão: culpa dos maus hábitos alimentares do mundo capitalista. Acho que ele tem razão: haja gás!

Pois bem, viajar com a Cometas S.A., companhia detentora da maioria das cordas que interligam os universos, é rápido e sai bem em conta, sem falar na mordomia que os passageiros (ainda!) têm a bordo. Nada comparado às companhias de vôos baratos, nas quais até pra se ir ao banheiro é preciso pagar, e por minutos!

Meu amigo desembarcou na hora combinada. Foi eu chegar à estação que a bola de fogo riscou o lugar. Desembarque rapidíssimo e zap!, o cometa seguiu de volta. Meu amigo só trazia bagagem de mão, uma pequena valise. Nossa, quanto tempo! Nos abraçamos com muita saudade. Ele estava envelhecido, mas não tanto quanto eu. É que os ares lá no B612 continuam limpos. Aqui na Terra, bom, melhor nem comentar...

Perguntei se havia feito boa viagem. “Tudo tranqüilo!”, ele respondeu. “E a Rosa, como vai?”, eu quis saber, alegre. “Fresca, como sempre. Sabes bem como as rosas são... ”, ele me respondeu, estirando os lábios num terno sorriso, que brilhava tal e qual recordo-me de quando era menino. “E o que te traz aqui, tão de repente?”, perguntei. “Saudades, minha cara, desejo de rever os amigos e respirar novos ares...”. “Pois, muito bem-vindo!”, proferi, dando-lhe uns tapinhas nas costas.

Pouco demorou e já estávamos no carro, a caminho do pequeno vilarejo que escolhi para me esconder, um fragmento de paraíso na Terra, embora não se sabe até quando continuará assim. Perguntei se ele estava com fome, e ele: “Não, fiz uma bela refeição durante a viagem, obrigado.” O percurso de automóvel, longo, prometia ser agradável. Conversamos sobre quase tudo, ele me pôs a par dos últimos acontecimentos nos universos das cordas de lá, e eu nas dos de cá, e falou-me de suas últimas explorações. Num dos últimos buracos negros visitados, contou-me de seu encontro com o ser olhar-de-canhão. Sem dar tempo à minha curiosidade fazer qualquer ninho, seguiu com a história:

— Assim eu o chamei, por seu olhar extremamente rígido. Imagina tu, ele vive num asteróide paradisíaco, muito mais belo do que este planeta azul e, jamais havia sequer se dado conta disso. Pelo que pude observar, ele enxerga o mundo através de um cano, e tudo o que vê no pequeno orifício no final são as linhas fixas que determinam a trajetória do seu olhar balístico. Interessante não deixa de ser, mas confesso que achei triste, muito triste... Desperdício de vida, e talento. Um belo dia, depois de já havermos travado contato — eu passava sempre nos finais de tarde para conversarmos —, pus-lhe um objeto na frente do canhão e pedi que me o descrevesse.

— Que coisa horrível! — exclamou o ser, e continuou: — Nunca vi algo tão monótono, inerte, rígido, tão... faltam-me palavras para descrever. Como jamais havia notado tal monstruosidade em meu planeta? Essa coisa não devia estar por aqui! “Cortem-lhe a cabeça!”

— Seu planeta? —, perguntei sorrindo com perplexidade.

— Sim, meu! Tudo o que conseguires ver aqui, meu rapaz, é meu, tudo meu!

— Ah, tá... está bem então... —, disse-lhe eu guardando de volta na maleta o espelho que há pouco segurara na frente do canhão.

Sem me dar tempo de refletir sobre a história, meu amigo príncipe continuou: “Pois é, minha cara, neste mundo de cordas bambas, se há algo que aprendi foi... ba-la-çar.”, falou sorrindo, degustando o verbo final. E seguimos descontraídos nossa viagem, deixando a bela paisagem do caminho, vez em quando, nos arrebatar. Enquanto isso, ia me preparando para entrar num terreno meio lodoso: perguntar-lhe sobre nosso velho amigo Exupéry...


Para G./B., com muito amor, carinho e gratidão.

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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 24/02/2011
Código do texto: T2811609

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