terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Filhos: escolhas, mitos e acusações





Por Helena Frenzel

Há tempos eu vinha ensaiando escrever um post sobre maternidade, mas só agora apertou-me a garganta a ponto de não mais poder postergar.

Maternidade para mim foi uma escolha, algo muito diferente do que se deu com minha mãe e bilhões de mulheres pelo mundo afora, que não tiveram direito a nada, muito menos a escolher. Por isso não acho justo acusarem de ir-contra-a-causa mulheres que optam por ficar em casa cuidando dos filhos, ou que priorizam os filhos à carreira profissional, por exemplo, sob pretexto de estarem contribuindo para a manutenção dos mitos que tentam manter as mulheres presas à lavanderia e ao fogão.

Tornei-me mãe já quase aos quarenta, e nossa filha foi um presente de Deus no tempo certo, veio quando ninguém mais esperava, nem os especialistas, muito menos eu. Um dos médicos que consultei na época me disse: engravidar, como parar de fumar, depende muito mais da cabeça do que dos métodos. Uma questão de fé ou força de vontade. Há coisas que, simplesmente, não têm explicação.

E veio no momento certo porque eu e meu marido havíamos já passado boa parte de nossas vidas cuidando dos interesses próprios, daí dedicar-nos ao cuidado de um filho seria muito natural. Escolhemos então: queríamos ser pais. Por um tempo até acreditamos que não poderíamos, mas a vida nos mostrou que sim, que seríamos e hoje somos e, independente do que nos traga o futuro, jamais deixaremos de ser.

E para bem aproveitar cada etapa no desenvolvimento da nossa filha, tive o privilégio de poder decidir deixar tudo o mais de lado para ficar em casa cuidando dela eu mesma, porque eu simplesmente não queria perder nada nestes primeiros anos, por mais estresse que eu pudesse ter – e houve momentos muito difíceis, mas superamos todos e tê-los vivenciado transformou-nos em ‘pais’.

Sei que muitas mulheres não têm ou tiveram essa escolha, TÊM DE trabalhar MESMO e deixam os filhos crescendo sós ou aos cuidados de outras pessoas. E não escrevo muito sobre este assunto porque creio que para a criação de filhos e relacionamentos não há receitas, cada caso é um caso, o que funciona para mim não serve para um montão de gente e o que funciona para outros, para mim pode não ter o menor valor, mas o que não aceito mesmo é alguém apontar o dedo a outras pessoas ditando como elas devem viver ou não. Quem luta por liberdade e igualdade de homens e mulheres deveria saber que livre é quem pode escolher.


O mais importante é a felicidade da criança, o seu bem-estar. Maternidade rima com responsabilidade, requer tempo, paciência e dedicação. O que eu percebo é que muita gente deseja ter filhos mas não está disposta a ter de renunciar a nada e crê no mito de que assoviar e chupar cana ao mesmo tempo é perfeitamente possível. Pode até ser, mas eu não acredito. Nestes casos, não ter filhos parece-me uma opção mais acertada, sobretudo para a criança, que será poupada de crescer sem a devida atenção dos pais.




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Um comentário:

  1. Helena, embora eu seja da geração de sua mãe. Visto que você tem a idade de minha filha, eu tive escolha. Optei por ter filhos, mesmo trabalhando fora de casa. Mas tive sorte: uma babá que chegou em casa aos 21 anos e ficou conosco por 38 anos! Além disso, eu tinha horários flexíveis, não tinha chefe, e meu consultório era vizinho da casa. Havia uma passagem no muro, e um interfone em casa, com comunicação direta na minha sala. Minhas filhas sabiam que era só apertar o número 1 e mamãe estava ao alcance. Assim deu para conciliar as duas coisas, com alguns percalços e muita renúncia. Mas renúncia sem lamentos, porque foi escolha, uma escolha diferente na época em que a maioria das mães ficava em casa. Devo acrescentar que minha mãe e minha avó materna trabalhavam fora, eram ambas professoras. Então, para mim, era normal a mãe sair para trabalhar. Mas, como você diz com muita lucidez, cada qual, podendo, escolhe o que quer. E acrescento: é muita falta de inteligência julgar e criticar a escolha alheia. Afinal, cada um sabe onde lhe aperta o sapato...

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