quarta-feira, 16 de maio de 2012

Letras bobas, séria questão

Diz a lenda que, numa viagem de ônibus, um grupo de jovens deu vida a um refrão. Tempos depois, alguém do grupo, numa festa, deu uma ‘palhinha’; outro alguém ouviu, gostou da idéia e usou numa composição sua registrada, legal. Tempos mais tarde, caiu a dita nas graças de uma banda, que a pediu para gravar. Letra boba, banda sem glamour e, contrariando expectativas, foi um sucesso a canção, hit internacional. Sucesso gera dinheiro que move interesses que causam brigas. Do bolo de notas, todos queriam provar; e direitos de autor. Isso se deu numa terra distante, por ali por acolá.

Já em Fufu Lalau, sem saber o que fazer com suas letras, Armindo começou a publicá-las num site, onde qualquer um podia comentar. Belo dia, juntou Armindo letras, comentários, tudo num saco, deu um nó, chacoalhou; tirou de lá um livro novo que, contrariando expectativas, virou sucesso mundial traduzido em várias línguas. Sucesso gera dinheiro que move interesses que suscitam brigas e logo, muitos dos ‘colaboradores’ vieram reclamar sua fatia no bolo de notas que Armindo ganhou. Tivesse o tal livro nem existido, ou sido comprado apenas pelo próprio autor, estariam, quem sabe, as letras do Armindo inda hoje dormindo na rede, em companhia das tão caras ‘contribuições’. Para o último juiz que julgou este caso, a séria questão tinha uma lógica simplista, boba até: contribuição, se deu está dado, e o comentário é de quem recebeu. Não se sabe se isto valeria na Bruzundanga (1), mas bem pode ser que valesse no Brasil, tendo valido em Fufu Lalau. Pelo sim, pelo não: moral da história...?


(1) Os Bruzundangas, de Lima Barreto, disponível em: domínio público gov br.



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Não sigo o novo acordo ortográfico em Língua Portuguesa. Se deseja reproduzir este texto, no todo ou em parte, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.
Helena Frenzel
Também publicado no Recanto das Letras por Helena Frenzel em 15/05/2012
Código do texto: T3669035

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domingo, 13 de maio de 2012

"My heart going boom boom boom!"


Foto: HFrenzel, 2012



I'm never where I want to be

And liberty she pirouette
When I think that I am free

My heart going BOOM BOOM BOOM!

"Hey", I say "You can keep my things,
They've come to take me home" (1)

Peter, sangue novo
Eu vi!


(1) Trechos de Solsbury Hill, Peter Gabriel.

domingo, 6 de maio de 2012

E a palavra duvidosa... não é mais!


Tela: Incerteza, HFrenzel.


Quanto à postagem A palavra duvidosa é..., na qual me perguntava se o correto é "obcecado" ou "obsedado", no que se refere a "obsessão", eis aqui uma sequência de comentários trocados no blogue A Letra Mata, de Luis T. Ladeira, que me ajudaram a esclarecer um pouco mais esta questão:

Helena Frenzel disse...

Olá, esta postagem é antiga, mas minha dúvida é atual. Não vivo no Brasil, daí uma grande dificuldade em encontrar material confiável e de qualidade sobre questões da língua portuguesa brasileira. Encontrei num dicionário online a forma "obsedado", mas desconfiei. A versão mini do Houaiss que trouxe na bagagem apresenta "obsedar" e "obsedante" relativos a "obsessão". Existe no português formal atual a forma "obsedado" ao invés de "obcecado" referente a "obsessão"? Ou, "obcecado" é o correto mesmo? Se puder ajudar-me a encontrar uma resposta para esta questão, muito grata. P.S.: Publiquei uma postagem com esta dúvida sob o título "A palavra duvidosa é... "(crônica) no meu blog Bluemaedel.
04/05/12 15:20

Luis disse...

Olá, Helena.

É um prazer recebê-la aqui no blogue, apesar de eu não o atualizar há séculos. Quanto à sua dúvida: há duas palavras: "obcecar", derivada da mesma palavra latina que dá origem a "cegar", e "obsedar", derivada de outra palavra que tem a ver com a ideia de oposição, obstáculo e significa, segundo o Houaiss, importunar incessantemente, ou obsediar, assediar. De "obcecar" provêm "obcecado" e "obcecação"; de "obsedar" derivam "obsessão", "obsedante", "obsessivo" e "obsedado", entre outras palavras. Há vários casos de palavras semelhantes que, no entanto, têm pais diferentes no latim. Ao contrário, há palavras que, derivadas da mesma raiz latina, assumem grafias diferentes, como "empecilho" e "impedir" (que não vêm na verdade da mesmíssima palavra, mas de palavras muito próximas no latim) ou "pleno" e "cheio", que derivam da mesma palavra.
 É isso, espero ter ajudado. Uma sugestão para material de consulta confiável: há versão do Houaiss digital, será que você consegue comprar aí onde mora? Se não, há o Aurélio, que tem versão inclusive para iPads e iPhones.
Se nada disso funcionar, uma ferramenta online ótima: Portal da Língua PortuguesaAbraço!
04/05/12 23:31


Uma ótima crônica, também sobre isto, atribuída a João Ubaldo Ribeiro e que se encontra na internet é: Questões Gramaticais

O certo, para mim, então fica: na dúvida, encontro outra forma de dizer e, com ou sem obsessão, "obcecado": só com "c"!

Inté!




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Helena Frenzel
Também publicado no Recanto das Letras por Helena Frenzel em 06/05/2012
Código do texto: T3652246

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sexta-feira, 4 de maio de 2012

A palavra duvidosa é...


OBSEDADO


Um dos maiores ganhos em praticar-se leitura e escrita é o cuidado que passamos a ter com as palavras, seus significados e usos. As gramáticas internas que possuímos – mecanismo que nos possibilita decodificar uma ou mais línguas desde o ventre materno – nos permitem identificar erros que, muitas vezes, não sabemos justificar, mas sabemos que fere o padrão armazenado (1). Exemplo disso foi o que se passou comigo ao dar de encontro com a palavra ‘obsecado’. Li esta palavra, assim grafada num texto ou comentário, e algo saltou dentro de mim. ‘Ob.se.ca.do’: as pessoas usam esse termo, já ouvi e usei várias vezes na fala; por que cargas d’ água estaria errado? Deve ser parente de ‘obsessivo’ ou ‘obsessão’, deve estar correto, pensei. Qual! Fui então consultar um dicionário. Encontrei ‘obsessivo’, ‘obsessão’, de ‘obsedar’ e ‘obsedante’, mas nada de ‘obsecado’. Tinha que haver uma razão. Fixada numa resposta, voltei então umas páginas atrás e, bingo: um ‘obcecado’ com ‘c’, de ‘obcecar’. Num dicionário online encontrei ‘obsedado’, mas não sei se esta forma é aceita como correta na norma culta do português brasileiro atual. Quem sabe, esta palavra - assim grafada e ‘assada’ empregada - tivesse me passado ao largo não fosse essa mania obcecada (teimosa) que eu tenho de escrever e perguntar.


(1) Estudos sugerem que, no cérebro, armazenamos palavras não aos pedaços, e sim padrões e situações em que ocorrem; é por isso que ao aprendermos uma segunda língua um conselho é memorizar as palavras em contexto, numa frase ou num padrão. Por exemplo: artigo + substantivo (a obsessão); verbo + preposição (obcecado por, fixado em).


Se alguém souber um pouco mais sobre essas formas, grata por contribuir .



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Helena Frenzel
Publicado também no Recanto das Letras por Helena Frenzel em 04/05/2012
Código do texto: T3648736


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