sábado, 14 de maio de 2011

O Plágio e a Mentira


Qual dos dois pesaria mais?

Escândalos, todo ano e em todo lugar. Vejamos o caso de um ex-ministro ‘super-star’, que antes de uma acusação de plágio, era tido como um político competente, perfeito orador. No país desse ministro, para se assumir altos cargos, privados ou estatais, ter doutorado é regra, não exceção, e ele até tinha, títulos, de nobre e de doutor, até que veio a fadada acusação e ele foi obrigado a renunciar ao de doutor, até que tudo viesse a se esclarecer. Jurava de pés juntos que, se fundamento houvesse para tal acusação, poucas ocorrências seriam, lapsos de edição: não citar as fontes de idéias transcritas no texto da tese.

Pois bem, as acusações não cessaram de brotar. Houve protestos de vários ‘fronts’, de estudantes e cientistas, mas o governo não queria liberar o bom ministro. “Tudo perseguição política! Logo esse ministro que tem feito um trabalho tão bom... Tem coisa aí!”

Passado algum tempo, gritando as evidências, o ministro se viu obrigado a mudar o discurso: “Revisando o trabalho com cuidado, percebi que cometi mesmo erros gravíssimos, que ferem a ética científica, mas foi sem querer, e é hora de consertá-los. Por isso, renuncio também ao cargo de ministro.” Oh, foi aquela comoção! Discussões em todos os meios. “Perseguição política, perseguição!”, enquanto que do lado dos cientistas: “Se plagiou, vai ter que pagar. Mas que coisa feia... tsc-tsc-tsc”.

Montou-se então um comitê de investigação na universidade, a mesma que havia lhe dado antes o título de doutor ‘summa cum laude’. Meses depois, o resultado: num relatório de mais de 40 páginas, o parecer: “Plagiou sim, e não foi sem querer. Muito bem plagiado aliás, já que nem o orientador havia conseguido perceber.” E depois do resultado, o ex-ministro ‘super-star’, que tanto gostava das câmaras, dizem os jornais, não quis mais falar, muito menos aparecer. Declarou, em algum lugar, talvez na sessão do comitê, que havia plagiado sim, mas só o fizera por não querer decepcionar a família, de origem nobre, muito menos o orientador. A carreira política lhe exigira demais, a família, e ainda mais a tese para terminar... — É, doutorado sério não é mole não... — e ele não queria admitir fraqueza diante da família, muito menos diante do orientador.

Mas teve que admití-la diante de seu país, e depois do veredicto começaram rumores de que ele não foi tão bom ministro assim, havendo pecado por falta de responsabilidade. Segundo certos analistas, enterrada está sua carreira política, pois a opinião pública jamais esquecerá o que se passou. Se fosse em países em que abunda a demência coletiva, até poderia ser que ele tivesse alguma chance...

No país deste ministro, no entanto, as pessoas condenam menos outros crimes do que a mentira, a tentativa de enganar a todo custo, vender uma coisa que não é real. Como se diz no Maranhão, o sujeito, quando tem a ‘boca dura’, morre sem confessar, ainda que tudo prove o contrário, e é isso o que mais irrita, a cara-de-pau. Se ele tivesse, talvez, logo no início, optado pela verdade, admitindo o erro e a fraqueza, tão comuns do ser humano, poderia até contar com o perdão. Afinal, ninguém é perfeito. É, no país desse ministro, ao que parece, entre o plágio e a mentira, a segunda pesa mais.




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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 13/05/2011
Código do texto: T2967015



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