quinta-feira, 3 de março de 2011

O Fugitivo


Há coisas na vida que são mesmo inatingíveis: nem adianta correr atrás. Olhe, já havia se passado de tudo: gato miando querendo sair, campainha soando, marido querendo comer, gente no telefone vendendo a mãe, vinho, ou pedindo ajuda à causa das manicuras sem fronteiras. A gota d´água àquele dia, porém, foi o apelo do vizinho: „Ei, dá pra tirar o carro? Queremos sair. Obrigado.“ Não há de quê pissirica!! Agora teria que esperar uma outra constelação. Não houve caminhada, vela, Bach ou Vivaldi que dessem jeito. Pois bem, cansada da caçada, decidi deixar pra lá. Daí começaram as tentações. Ele sempre aparecia quando eu estava no meio do sono, no chuveiro, dirigindo, no... bem, fazendo qualquer coisa que não desse logo pra interromper. Das primeiras vezes, até cheguei a me ouriçar, espalhei papel, caneta e gravador pra tudo e quanto foi lado, só pra dar uma de „Tô nem aí pra ti, ó!“. Um belo dia, entretanto, logo cedinho, senti ser beijada por um tênue raio de sol que, ao bater em meu rosto, virava coração. Vi através do espelho e, focando os olhos num canto, lentamente, custei a crer que ele também estivesse ali. Observava-me com a maior cara de pau, balançando o rabo pra lá e pra cá. Controlei o impulso de correr a mão à cabeceira, virei para o lado e fingi continuar dormir. Ele então começou a miar, a latir, por último a rosnar feito um leão, pode?! Era muita provocação! Levantei de um salto e, a ponto de prender-lhe pelo rabo... pronto, fugiu outra vez, filho da letra! Um dia eu te pego, texto bandido! À noite, após um belo passeio pela praia, fiz então como Neruda: pensando nas obrigações do meu texto fugitivo, sentei-me junto à lareira, tirei os sapatos; deles escapou areia, e aos poucos fui me deixando adormecer...


Texto também publicado no site BVIWtecendoletras


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 02/03/2011
Código do texto: T2824531

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