sábado, 19 de março de 2011

A Liberdade na Literatura

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Ultimamente, venho pensando bastante sobre isso, o que só se dá porque agora tenho tido tempo para escrever. Sim, liberdade na literatura é necessário, e nada tem de preciso; explico: no sentido de exatidão. Sem liberdade, vejo prazer nenhum em criar, se bem que há quem defenda que restrições e censura estimulam a criatividade, pois temos sempre que encontrar caminhos que desviam das proibições, e isso sem que percebam que os estamos seguindo, esses caminhos, falo. Pois bem, quando penso em liberdade na literatura, refiro-me não a uma libertinagem na quebra de regras puramente lingüísticas, ou melhor dizendo: gramaticais, a uma cavalgada cega ou ignorante nas praias da linguagem. Não, falo de algo mais profundo, na dimensão dos sentidos, das conotações, do ‘desforme’ das formas bem-comportadas, na cunhagem de um estilo original. E neste senso, liberdade na literatura é essencial. Há quem possa pensar que uma tal liberdade não se goza nas ciências exatas, mas penso que a coisa não é bem assim. Por exemplo, para chegar aos modelos que chegaram, Einstein, Hawking e outros monstros na Física e na Matemática tiveram que dispor, também, de muita, mas muita fantasia e liberdade de imaginação. Ou seja, um mundo não está totalmente dissociado do outro. Na verdade, quanto mais mundos alguém possui dentro de si, maior a probabilidade de ter uma imaginação mais rica, em todos os sentidos. Por isso, voltando à literatura, nos dias de hoje, em que o texto literário tem perdido muito campo para (e vem sendo até confundido com) o produto editorial, concordo com Juan Goytisolo, escritor espanhol, quando diz que é muito importante não se deixar cair na tentação do comercial, não fazer concessões — coisas do tipo escrever para agradar a certos públicos, ou para conservar um certo número de leitores já conquistados. Se o objetivo de alguém é a pura literatura, fazer concessões, por certo, só delimita o campo das experimentações, onde podem nascer novas propostas. “Ah, mas ninguém vai querer comprar o meu livro!” Se o seu objetivo é vender, então não é para você este artigo, melhor que leia os gurus. Mas se o seu objetivo com a literatura é mais profundo, se você busca, como Juan Goytisolo (aqui também me incluo), mais re-leitores do que leitores (pois todo bom texto convida a ser relido), se você busca criar textos para ‘incomodar’, literariamente falando — incluindo aspectos políticos, religiosos, culturais, crítica social, etc. —, aí sim, esta reflexão é também dirigida a você. Neste ponto, minha opinião, que coincide mais uma vez com a de Goytisolo, é a de que, para se chegar a um alto nível de liberdade na literatura, além de muito conhecimento, trabalho e certa dose de talento, é muito importante não dependermos do mercado editorial. Ou seja, ao invés de sobreviver do que se escreve, financeiramente falando, muito melhor é trabalhar para poder escrever sobre o que quiser. Esta liberdade não tem preço!


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 12/03/2011
Código do texto: T2843426

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Um comentário:

  1. Oi, Helena! Depois que eu li a arte de escrever de Schopenhauer, fiquei muito mais voltado para esta obrigatória liberdade. Digo obrigatória é para ser redundante, já que a tentação mercadológica é muito grande (e a pressão também). Na editora onde tenho publicado, por exemplo, evito até de estender assuntos literários com eles, uma vez que não conseguem falar outra coisa senão dar conselhos relativos a meu comportamento midiático, como escrever para atingir um maior público, os temas a tratar, a forma de abordar "clientes" literários, enfim, uma tragédia para a liberdade criativa. rsrs. Decidi então minha postura: escrevo para mim e para a literatura. Os meus possíveis leitores é que definirão se mereço escrever para a literatura. Adorei o seu artigo. Abração. paz e bem.

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