quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Nadismo


Aprender a parar no tempo é fundamental



Veja só, há anos sou praticante do nadismo sem saber. Nadismo?! Mais um termo moderno, a exemplo de bullying e cia, cunhado por novos autores para uma velha e intuitiva idéia praticada já há séculos — Leia-se Elogio ao Ócio de Bertrand Russel e O Ócio Criativo de Domenico De Masi, só pra citar alguns.

Nadismo, pelo que entendi do pouco que me inteirei (há pouco) sobre o assunto, através de matérias e vídeos na internet, consiste em reunir um grupo de pessoas para ‘fazer ABSOLUTAMENTE nada’ por pelo menos quinze minutos do dia. Naturalmente se pode ‘fazer nada’ também sozinho, mas em grupo parece que a coisa chama mais a atenção, ou simplesmente dá mais prazer, sei lá.

Lá pelos idos de mil novecentos e carne de porco, minha amiga Isabel costumava convidar os amigos para ‘fazer nada juntos’ na casa dela ou em qualquer outro lugar; uma prova de que o nadismo parece ser uma reação bem natural ao crescente ritmo das últimas décadas.

Como sugere o educador Richard Gerver numa entrevista para a Rádio e Televisão Espanhola (rtve.es), mudanças sempre ocorreram, porém não da forma exponencial que vivenciamos nas últimas décadas, quando ninguém mais — falo de seres humanos medianos normais — tem tempo para assimilá-las.

Basicamente, eis o que faço: mesmo diante do estresse inevitável, já que o tempo não pára e as contas vencem, aprendi a ‘parar no tempo’ de vez em quando, nem que seja só por cinco minutos diários. Na verdade, costumo praticar muito mais, uns 15 minutos, tempo de ouvir pelo menos umas três canções num tocador de CDs  — CD?! Vixe, que coisa mais antiga, não? Pois é...

E nesse meio-tempo fui desenvolvendo termômetros que me indicam a hora de fazer uma pausa. Por exemplo: quando não consigo mais conversar, ouvir, pintar, ou escrever só por escrever — porque o prazer é sufocado pelas tantas obrigações —. Numa hora dessas me alegro por não ser profissional da escrita, digo: jornalista, colunista diabo-a-quatro-que-sobreviva-só-de-escrever. No entanto, meu trabalho exige que eu pesquise e escreva muito, em várias línguas. Nada se compara à satisfação de ver um trabalho importante pronto e publicado, lógico, mas essa atividade fatiga também.

Por isso, nas minhas horas de fazer nada, faço nada MESMO e não tenho o menor sentimento de culpa em deixar tudo pra depois: emails e telefonemas ‘urgentes’, coisas ‘imprescindíveis’ que ‘tenho que fazer’, sair pra comprar alguma coisa ‘indispensável’ — “What you don’t have you don’t need it now”, obrigada U2! —, etc., etc., e etcétera. De fato, ninguém é ‘imprescindível’. Quando não estivermos mais aqui o mundo continuará perfeitamente, provalmente até melhor: sem nós.  E não  ‘temos’ que fazer nada, pois até o ‘fazer nada’ podemos escolher não fazer.

E sabe o que tenho colhido de tudo isso? Continuo surfando nas loucas ondas do mundo contemporâneo, o que é impossível evitar, porém  levo hoje uma vida menos complicada, com menos cobranças, mais saudável, mais desapegada das coisas materiais, com muito mais prazer e muitíssimo menos estresse.

Ou seja: essa bobagem de ‘fazer nada’ de vez em quando funciona sim, basta querer e saber implementar.

Mais sobre nadismo aqui.


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 05/01/2011
Código do texto: T2711371


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Um comentário:

  1. Acrescento mais um nesta lista dos que propõem com suas inquietações mentais, nos aquietar corporalmente: o último livro do Rubem Alves: A PEDAGOGIA DOS CARACÓIS. Assisti a uma palestra dele aqui em Bh no ano passado sobre o assunto e é por ai também. Gostei , Helena. Meu nadismo atualmente tem sido dedicado a ouvir música também. Mas pera lá: isso já não seria fazer alguma coisa? hahaha! Abração, querida! paz e bem.

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