sábado, 16 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Corazón tan blanco


‘Corazón tan blanco’, livro de Javier Marías, o último que acabo de ler. Experiência literária como poucas este ano: uma tensão boa do começo ao fim, surpresa a cada novo capítulo, nova história, novo trecho; um trecho puxando outro, relembrando, repetindo sem de fato repetir, Leitmotiv encadeando frases, feitos e pensamentos. Terminei de lê-lo ontem à noite e durante a leitura me peguei várias vezes dialogando com o texto, tentando antecipar o final, em vão. Branco: pureza ou covardia? Em sonho, enveredei por vários dos caminhos sugeridos no fim, sem me dar conta de que sonhava, até acordar.  Muitas das passagens ainda ecoam em meus ouvidos, sem qualquer esforço para mantê-las. O texto canta sem ter rima. Sei disso pois li vários capítulos em alta voz, no compasso da pontuação e sem ignorar pausas. Num texto, assim como na música, pausas têm significado e muita importância, devem ser respeitadas! E Marías soube usá-las com louvor -- palavras, pausas, pontuação -- para dar cadência e fluidez ao texto, meu Deus! Obra de arte. A história é bem orquestrada. Em alguns momentos até pensei: ‘Pra que raios o narrador está me contando isso’ e as respostas foram surgindo, no tempo certo, e sem antecipação do final, que segue aberto, e satisfaz -- talvez pela idéia de que toda história é infinita, segue sempre, depende da forma de contá-la.

Um pouco sobre a história: Juan é um intérprete que se casa com Luisa, uma colega de trabalho. Desde o dia de seu casamento começa a sentir um crescente mal-estar, um pressentimento de desastre por ir descobrindo, sem querer, coisas que desejava jamais ter sabido.

Este livro foi lançado em 1992. Li a terceira edição em Espanhol e não sei se já foi traduzido no Brasil. Cheguei a ele por recomendação de um velhinho gente boa e que entende muito de Literatura, um contador de histórias, também histórias da vida real, História da Literatura.

Para terminar, valeu a pena o dinheiro investido neste livro; e não foi caro. Na lista de livros lidos este ano, coloco-o com cinco estrelas, pontuação máxima do meu banco de dados, ao lado de El Amor en los Tiempos del Cólera, de Gabriel García Márquez. Leia-o também; se gosta de boa literatura, dificilmente se arrependerá.

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Se deseja reproduzir este texto, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 14/10/2010
Código do texto: T2556338



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Escrever por quê?

„Was ich schreib, muss ich essen, was ich nicht schreib – frisst mich.“

Herta Müller, Prêmio Nobel 2009 de Literatura.

“O que escrevo, tenho que mastigar e engolir, o que não escrevo - me devora.”

Tradução livre: Helena Frenzel.


Também publicado no Recanto das Letras em 14/10/2010
Código do Texto:  T2555472



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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Um Dia de Feira


É dia de feira,
Quarta-feira
Sexta-feira
Não importa a feira
É dia de feira
Quem quiser pode chegar...
” (1)

Foi mais ou menos num clima bom de outono, ontem, e num domingo, que aproveitei um convite para a Feira Internacional de Frankfurt. Confesso que nunca havia estado numa Feira do Livro com tamanhas proporções; me perdi lá dentro, contei uns 10 prédios! Usei várias vezes o serviço interno de micro-ônibus pra me locomover.

Vi quase de tudo: estandes de vários paises, filmes, desfiles de personagens fantásticos, mesas de escritores, o livro mais longo e pesado do mundo, etc. Convidado de honra deste ano foi a Argentina, parte que escolhi para visitar com mais atenção. As opções eram tantas e foi difícil fechar um programa que, ainda bem, se podia personalizar no site da Feira na internet.

Ajudou bastante ter me programado antes pois, na prática, gastei ainda um certo tempo para “me achar” no meio de todo aquele espaço, mesmo portando um mapa -- confesso que sou ruim com mapas, embora assuma o papel de navegadora muitas vezes, ao explorar novos lugares. Devagar e com calma se consegue tudo!

Pois bem, ponto alto do dia foi uma mesa de escritoras sobre o tema Mulher e Poder na Argentina nos últimos 200 anos. Questões de Gênero (Gender) me interessam muitíssimo e a mesa foi excelente! Participaram dela as escritoras Graciela Araóz, Ana María Shua, Elsa Drucaroff e Luisa Valenzuela. Desconhecia todas, mas fiquei com muita vontade de conhecê-las depois de presenciar esta mesa de discussões. Para isso serve uma Feira de Livros: aproximar leitores, livros e autores, não?

As discussões foram em Espanhol, com tradução simultânea para Inglês e Alemão. Vendo o esforço dos intérpretes nas cabines, lembrei do protagonista de 'Corazón tan blanco', romance de Javier Marías que, desde a primeira linha me ganhou e até agora está me proporcionando uma leitura magnífica. O protagonista é um intérprete e revela certos “segredos” desta profissão que, para ele, praticar por toda a vida faz enlouquecer. Haja responsabilidade nisto: o futuro do mundo na boca de alguém!

Sim, mas de volta à Feira, visitei também estandes brasileiros, não sei se todos. Muitos livros (já antigos) estavam só em exposição, não à venda. “Por causa dos direitos”, disse uma atendente. Eu bem poderia ter tentado saber mais sobre os porquês, já que se tratava de uma associação de editoras brasileiras, contentei-me no entanto com a resposta e segui visitando. Para matar a saudade do Português comprei alguns livros num estande português.

“Adeusssss!”, disse-me a vendedora. “Português de Portugal; no Brasil se usa dizer ‘Tchau’”, falei para minha acompanhante, em Alemão. “Então Ciao!!”, nos disse a ‘vindidora’ com um sorriso. Estou contente com o poeta e o ensaísta portugueses que trouxe para casa. Esperava pagar menos pelos livros numa feira, mas acho que foi em conta...

Impressões rápidas e finais: A Feira do Livro me pareceu, acima de tudo, um evento puramente comercial, ainda oferecendo oportunidades para estreitar o triângulo leitores, autores e livros, bem como espaços para encontros, discussões, promoção de livros e arte em geral. Prefiro eventos menores e mais aconchegantes, como mesas de discussões em pequenas livrarias ou cafés literários. Bom, mas esta é uma questão pessoal. Gostei muito das mesas e apresentações que tive o privilégio de presenciar. Hoje cedo, ouvi no noticiário sobre a satisfação dos organizadores: um sucesso em todos os setores,  279.325 visitantes em cinco dias.

Senti-me privilegiada por ter podido participar este ano. Quem sabe não ganho outro convite para 2013, quando o convidado será o Brasil? E se não ganhar, faço questão de pagar (pelo menos um dia) pra ir lá ver, quando espero encontrar conhecidos e muito mais autores e livros (bons e novos!) representando o país.

(1) – Trecho de A Feira, O Rappa.

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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 11/10/2010
Código do texto: T2549854

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sábado, 9 de outubro de 2010

Impressões: Demais!!



Arte e Literatura

Aqui vão, dentre outras informações, algumas impressões (minhas) ao ver um documentário sobre o Impressionismo, um movimento artístico que mudou a forma de muitos verem o mundo, as artes e as cores.

Sou fã dos impressionistas, sempre fui, e passei muito tempo sem sabê-lo. Um movimento que, indo totalmente contra o pré-estabelecido na época, final do século XIX -- momento em que arte, para muitos, era algo certinho, imitação o mais perfeito possível do mundo real (bom, pelo menos do que muitos viam como real) --, levaria à produção de muitas das obras mais belas da história humana, e revolucionaria o conceito de arte, em geral.

Fato é que os impressionistas, a meu ver, buscaram as formas do feio, talvez por isso tenham sido interpretados como quem tenta tirar um sarro com o real, e sem caricaturá-lo. Por que o corpo da modelo nua não podia ser de tons pastéis? E por que não lilás, como as veias circundando os seios desnudos de algumas das moças de Renoir? Cézanne, Monet, Manet, outros mais. Amei a pintura de Monet desde que topei com ela, no primeiro instante, amor à primeira vista. Nem sabia o que era Impressionismo, só sei que me senti capturada por aquela forma de ver o mundo, as águas, a luz e as cores.

Como disse mais ou menos Monet, o “inventor” das primeiras técnicas que viriam a ser chamadas de impressionistas: um pintor vê, antes de formas, apenas cores, e são essas cores, esses pigmentos, o que deve registrar.

Os membros desse movimento sofreram um desprezo muito grande por parte da sociedade e das academias de arte da época, um boicote enorme (quase massacre) às exposições e ao trabalho desses artistas. E isto eu desconhecia. Tanto que alguns, como Renoir, sucumbiram à pressão e voltaram ao convencional; afinal, artistas precisam comer. Já outros, mesmo sem chegarem a ter glória em vida, seguiram seus ideais. O regente do coral feminino do qual participo sempre diz que o gosto popular não pode servir de critério para um artista.

Phillipe Petit, artista e equilibrista francês, recebeu um Oscar por um documentário. Na feira literária de Mantova (Itália, 2010), ao ser perguntado sobre os impactos deste prêmio em sua vida, disse uma coisa que vale a pena guardar, que foi mais o menos assim: “Prêmios não devem interferir na vida e obra de um artista. Significam reconhecimento, nada mais. Minha vida não mudou por causa deste Oscar.”

Não resisto a especular sobre o que estaria pensando Vargas Llosa agora que acabou de receber o Nobel de Literatura, principalmente sobre a enxurrada de artigos sendo publicados, falando bem ou mal da qualidade literária e ideológica de seus escritos. Se eu tivesse ganho 1 milhão de EUROS por certo estaria muito feliz, independente de quaisquer opiniões. Imagine só quanta gente eu poderia ajudar! Bom, voltando à realidade: alegro-me muito mais pelas coisas interessantes que aprendo a cada dia, sobre arte, cores e impressionistas, artistas que marcaram para sempre minhas formas de enxergar. Como César Manrique, penso que ser artista significa, em boa parte, aprender e ensinar a ver.

Ah, novidade legal (pelo menos para mim!): O Brasil será o convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt em 2013. Este ano, 2010, está sendo o ano da Argentina. É o mercado editorial mundial voltando-se para a América Latina, oportunidades para os estão preparados ou se preparando para agarrá-las, não? Se isto é sorte, sorte aí Brasil!

Um abraço fraterno.

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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 09/10/2010
Código do texto: T2546315



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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Papel em Z









Dobrado
Parte pedaços
Recicla
Em branco barato
Denso
Pesado em grãos
Padrão
A4 retrato
Paisagem
Gravura tinta
Borrão
Pinturas croquis
Passado
A limpo nos pingos
Pontos linhas
Nos iis
Exprime
Ideais sentidos
Jogado
Amassado no lixo
Perdido
De novo achado
Salvo
Com exclamação


Criar com absoluta liberdade, sem medos e sem receitas, conforta a alma e abre um caminho à alegria de viver.”

César Manrique, para mim um artista completo e admirável.

Na poesia deve-se ir sempre além do dito. O leitor tem que proporcionar a pólvora para que as palavras disparem seu significado.” – seus significados, adiciono eu.

José Antônio Marina e Maria de La Válgoma – La Magia de Leer, Debolsillo, 2007, Página 30.

Citações traduzidas livremente (por Helena Frenzel) do Espanhol para o Português.

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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 08/10/2010
Código do texto: T2544702

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Guerra E-maildiática

“Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão“

Trecho de Meu Caro Amigo, Chico Buarque e Francis Hime.


Nesse momento de TPE (Tensão Pré-Eleitoral) publico aqui um e-mail que recebi ontem de uma grande amiga. Que sirva a reflexões e mudanças de atitude, espero. Trata-se de uma opinião que, a meu ver, merece ser divulgada. Optei pelas iniciais no final para preservá-la.

                                          * * * 

Assunto: CASAMENTO GAY + ABORTO

Bom, cansada de receber uma série de e-mails especulativos sobre os candidatos à Presidência, resolvi manifestar minha opinião e deixar aqui o meu apelo.

O último que recebi, e que apaguei do meu e-mail, foi um afirmando sobre a legalização do aborto e do casamento gay. Este boato está levando pessoas, padres e pastores ensandecidos a pedirem para seus fiéis não votarem na candidata Dilma.

Depois que terminei de ler aqueles absurdos, parei uns minutos para refletir e me veio a seguinte pergunta: sobre este assunto, vocês sabem qual a opinião dos deputados federais e senadores que vocês elegeram?

Pois é, se vocês não sabem, agora já era! Até onde eu sei, presidente nenhum pode acordar de manhã e dizer: “A partir de hoje está legalizado o aborto!”. Para uma lei dessa natureza ser assinada precisa antes ser aprovada por esses distintos. Sendo assim, não importa a opinião do presidente, pois, ao final, quem decide a aprovação dessas leis são os deputados e senadores que nós elegemos levianamente.

E-mails como estes não agregam nada de valor e só servem para instalar o terror, típicos dos governos ditatoriais. E demonstram o quanto a nossa hipócrita sociedade ainda se baseia em preconceitos e especulações para decidir o seu voto. 

Então eu deixo aqui o meu apelo. Antes de repassarem esses e-mails, desarmem-se de preconceitos. Analisem a real intenção deste! Procurem saber como funciona a máquina do governo. Leiam, e leiam muito sobre seu candidato, seja ele X ou Y (literalmente!). Se vocês quiserem convencer alguém a votar em seu candidato, mandem gráficos e números mostrando o que ele fez de bom e qual é o plano de governo. E, desconfie sempre de campanhas difamatórias e preconceituosas. Esse pode ser um sinal de que o candidato está apelando e de que não deve ter nada mesmo para mostrar. 

Caso não tenham nada melhor para me enviarem, agradeço se deletarem o meu e-mail destas listas sem fundamento, pois minha caixa postal anda entupida de e-mails que até agora nada influenciam minha escolha de em quem votar. 

Obrigada!

IC.

                                           * * *

Reproduzido com a devida permissão, naturalmente.


Também publicado no Recanto das Letras em 08/10/2010
Código do Texto:  T2544601



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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Conto Companheiro

Cara, fiz de novo! Não tomo jeito...

Mas por que tinham que me perguntar, logo eu que não sei mentir? Tive que dizer o que pensava do conto, oras, tudo pra não confundir. Contrariei então minha decisão, não dar pontos em contos terceiros. O resultado, porém, foi bom: compreenderam meu momento primeiro.

Sinto, mas um conto que do meio já revela o fim, venhamos e convenhamos, só posso considerar um conto ruim. Até mesmo EU não escapo a este critério, pois “a verdade será sempre a verdade, dita por Agamenon ou seu porqueiro”. Pode até estar bem escrito, estruturado não tal mal, mas se em nada surpreende nem incomoda no final, sei lá, algo assim sem sal sem isso só pode ser um conto mau... Cara, eu sou mau!!

Você pode até pensar que sou doido ou masoquista, fato é que A-D-O-R-O  quando contistas me maltratam assim, digo: enrolado na pele do leitor,  levo chute no traseiro e fico sem saber o que se passou, mas depois entendo o companheiro. Ah, esqueci dos tapas. E nada de beijos se o conto não é de amor.

E tem que ser um golpe certeiro, mas tão certo sem dar tempo de esboçar outro furor, que não seja abrir a boca, de espanto, babando prazer pra no fim: “Cara, que conto legal! Tô vendo estrelas contadinhas!”, algo que eu chamo de ápice literário, ou melhor: clímax – pra não chocar os enrustidos – nada que ver com idade ou sexo, tá?, algo metafísico.

Sensações assim tive ao ler Machado, Cortázar, García Márquez, também autores outros, magistrais. Acontece, vez ou outra, de eu sair por aí meio louco, caçando contos que me digam algo pra ler. E na maioria das vezes sem procurar encontro, contos que me dominam e apanham de jeito, jeito de texto que sabe prender!

Esse tipo de conto luto pra ser. E desta sina contada nem penso em fugir... E a paga de tudo isto? Imenso prazer em ler e jogar. Coisa boa é apanhar de um conto e quem tiver seus contos bestas (como eu de quando eu vez) sinto muito, vai ter que me entender! Sou um conto malandro, sincero e companheiro.

Cara, eu fiz de novo! Será o santo conto que eu não tomo direção?!


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 07/10/2010
Código do texto: T2542848

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Memórias de Maria Teresa - Num Shopping

“Vamos às compras e atestarei quem és. Essa é velha!”, brincava Teresa ao recordar de certa vez, em viagem, quando se viu compelida a adquirir um traje, justo um dos que escolhera consciente não pôr na mala.

“A vida da gente já é cheia de bagagens, não? Pra quê piorar? Menos é mais!”. Peça básica, terninho, coisa que certos entendidos chamam de ‘tailleur’. Teresa não é disso, de moda, muito menos de shopping, ato e lugar.

Não podendo afastar de si aquele ‘compre-se’ resignou-se, foi, e lá chegando, no shopping, acionou cronômetro: “Mais de uma hora não vou agüentar!”. Lojas para crianças, jovens, artigos esportivos e "Livros! muitos livros!". Resistiu à insistente tentação. “Volto mais tarde”, consolou-se ao passar pela livraria, tendo que virar a cara para não olhar.

Uma piscada era ceder, uma olhadinha que fosse e a chance de ser fisgada por qualquer título era alta que batia no teto, e seguia louca em qualquer direção, e sem vontade de parar. “Ah, uma boutique! Salva pelo canto!”. Ali era bem capaz de encontrar rapidamente o que queria, logo teria tempo para ir descontar os pecados na livraria.

Preto. Experimenta. Serve direitinho. Só faltava o preço. “Quê?! 3.000 Putos?!” Procurou inflação, tecido, marca, uma costura dourada que fosse para justificar o exagero. Nada. E não escondeu da vendedora a reação. No seu banco de experiências nenhuma situação idêntica: um traje na mesma categoria, ainda que portando marca, e naquele valor. Para não dizer que se enganava, converteu o preço para outra moeda. “Assim não pode, assim não dá!”

Mesmo necessitando do dito, odiando shoppings e podendo pagar, Teresa nem pensou em levar o terninho para casa, digo: hotel. Disse-me que se lembrou dos professores, ganhando menos de 500 Putos por mês. Não titubeou em dar cabo àquele tormento. "A lógica daquele preço, e de quem aceitava pagar por ele, só podia estar na alienação da vida e de valores. E era uma cidade pobre, acreditas?! Entende-se bem o por quê... O quê teria aquele traje que justificasse um preço tão fora do real?”

“Muquirana, mão de vaca!”, ouviu a vendedora cochichando entre dentes para uma colega. Devolveu o terno, agradeceu o atendimento e virou-se para sair. “What you don’t have you don’t need it now... Forever and ever!”, foi cantarolando a caminho da livraria. Ah! e como não era um evento nudista, foi vestida de si mesma, jeans e camiseta, com uma consciência muito mais limpa e sentindo-se muito mais feliz.

(1) “What you don’t have you don’t need it now...”
      Trecho de Beautiful Day, U2.
(2) “Forever and ever!”
      Trecho de Hallelujah – G F Handel


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 07/10/2010
Código do texto: T2542357

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Da Prisão

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Homenagem à poesia de José-Miguel Ullán.


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 06/10/2010
Código do texto: T2540900

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