quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Caso dos Buracos



Aconteceu em Fufu Lalau, povoado apegado a Suvaco da Cobra, cidadezinha onde nasci. Foi que, numa certa época, de um dia pra outro, a falação no vilarejo era um ponto só: o mistério do buraco branco. Mió dizer os buraco, já que era mais de um só. Diz que todo mundo via: mulher, home, minino, véi. Se duvidar, inté cego. Os bicho, num se sabe, pois que num sabem falar os bichim. Pur mais que me isforçasse, eu era um dos poco que num cunsiguia ver. O caso dos buraco saiu inté no Fanático, programa de tv semanal – se pega cum a parabólica. Veio gente do mundo intero, e no meio deles muitos cientista, pra tentar disvendar o mistério dos ditos buraco. Tudo começou com Tonha de Zezinho. Eu sei disso porque tava lá passano féria e ela é minha tia. Um dia, ela acordou, deu de cara com o seu buraco no teto e se danou a dizer que tava veno maravilhas. Tudo branquin; dizia que via cidades, mundos e gente de cristal. “Quem tem olho vê!” -- falava quano zombavo dela. De Tonha pra Zezinho, Zé do Corvo, Maria Juvenilso e todo o vilarejo cumeçar a ver, ói que foi tudo um piscar de ôio só. No outro dia o vilarejo intero diz-que via, cada um o seu próprio buraco, claro. Mas todos viam. Logo apareceram as profecia: “Eu disse, num disse? Final dos tempo!” Pânico geral. Quem vendeu, vendeu; quem comprou, comprou. Quem deu, deu e quem quis se confessar, se confessou. Era mais quem pidia perdão (me alembro que muita poca gente se importava em dar, só quirio receber). Nunca se viu tanta roupa suja, junta, sendo lavada em plena praça pública! Eu caçava meu buraco e chegava a me disesperar. “Ai, meu Deus, num vejo nada! Quer dizer qui num vô pro céu?” Me danava a rezar pensando nas peninhas da mia alma. E nesse meio-tempo, trabalhavo os cientista. Todo dia eu me angustiava: “Por que esse povo todo vê e eu não?” No Fanático, um cientista disse que pudia ser coisa da água do rio. Se fosse isso, agora tava tudo ixplicadinho: eu tinha tanto medo de pegá di novo barriga d’àgua o candiru, que nem pensava em meter sequer a ponta do dedo no riozinho. Um outro cientista era d’ua outra opinião: os buraco branco vinho de uns buraco maior, chamado negro. Esses que quano perdiu os cabelo se danavo multiplicar. Mas essa hipótesis -- eita nome difícil! -- era difícil de provar, pur isso ficaru cum as água do rio mermo. Fuçaro, fuçaro e discubriru uma fábrica clandestina, um lugar onde preparavo essa coisa de droga pra vendê e jogavo os resto no rio. A tal da substância cumé mermo? alucinógena? quasi qui num sai, minino! era o que fazia a gente fufu-lalina vê os buraco. Uma vez isclaricido os mistério, foro tudo simbora de Fufu Lalau, que virou um ponto branco no tempo e no ispaço. Demoró um poco ainda pra gente de lá se isquicer dos confessado e a vida vortá pro normal. Mais cum poca eu vortei pro Suvaco e o no caso dos buraco -- branco, negro ou cor-de-rosa -- nunca mais ouvi falar.




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Revisado em 18.09.2010






Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 16/06/2010
Código do texto: T2322409



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