sexta-feira, 4 de junho de 2010

Entre iguais ou muito parecidos


Lá fora o vento embola uma árvore e cá dentro emboloro eu. Esse ar abafado, de livro antigo, me embriaga e agrada. Tenho andado sem rumo, por aqui e por ali fornecendo idéias insólitas, inspiração. O ruído do lápis contra mim, no papel, me fere -- todavia um mantra para meus ouvidos. Encerro-me nesta biblioteca, nesta estante, neste livro. Falta-me coragem para muitos capítulos mais. Quero fugir do que é óbvio, claro. Devo ter cuidado com o embaraço -- não porque seja grávido, muito mais pelo emaranhado de situações. Sei que o vizinho de página me ouve; e eu a seus suspiros. Queria tapar-me os ouvidos, não dá. Falta-me autonomia, e mãos. A coluna de quem me sustenta agora balança, e com tinta me escreveu no tempo, para desacelerar. Não é assim tão difícil, muito menos impossível. De fato, quero tocar em temas movediços, mas me falta coragem na hora ha-gá. Não fui escrito para agradar quem quer que seja ou queira ser: isto me foi dito pela dona da criação. Também não para causar desgostos, desilusão e coisa e tal. A adolescente fala alto, contempla o mundo arrogante do alto da ponta do seu nariz, por trás de minhas orelhas, e fala pela minha boca. “Estou com saudade da pena que me pariu”, isto ela me fez dizer. “Que pena me dá prender minha alma pequena, frágil, aprendiz” – e isto também. Sinto falta de um canto ou um muro para lamentar meus sentimentos mais profundos, aqueles impressos quando quiseram sair.

O que fazer para manter da pena a tinta, do papel a seda e da vida a chama? Descobri que necessito poesia, concentrar-me no sonho e passar ao largo da vida, ouvir detalhes, ver acordes, inspirar criação à dona. E agora? Quem será que disse isto? Eu não sei. Arrisco ter sido eu, mas bem pode não ter sido: a dona, ou meu vizinho, a quem agora escuto com mais acuidade. Seu suspiro me parece tudo, menos felicidade, e o som da caneta, esfera girando pra lá e pra cá. Quem me vier a ler, por certo, em nada me entende. Será? Que monte então sua própria escala de gosto e interpretação; ou mergulhe em mim, que sou mar. Para mim, pois, pouco importa. Meu prazer maior já foi posto à prova, agora resta desfrutar. Não se deve parar o ato no meio do tempo, e por isto os marcadores. De todos os lados rompem críticas, pareceres e opiniões para selar o meu destino. O que preenche meus vazios é uma busca por clareza sentida, sonora, mergulho na imensidão. Dizem que o adjetivo é um bandido e o processo, sinto, concentra-se nas minhas ações. Faltam-me pausas, sobra pouco tempo para respirar, como quem corre da morte, da angústia de não parar jamais. Se me ignoras, encerra-me no livro e jamais retornas a abrir, meus segredos mais profundos, esses -- juro! -- jamais revelarei a ti, pois como tu, sou só mais um -- personagem.


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Revisado em 18.09.2010
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 04/06/2010
Código do texto: T2299732

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