quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Feliz Natal! Próspero 2011!



A todos aqueles que acompanharam este meu "hobby" em 2010 
desejo um Feliz Natal e um Ano Novo Próspero, repleto de Saúde e Paz! 

Em tempo: muito obrigada pelas leituras e partilha.

Tudo de bom para todos nós!



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A comédia... nova?!


Como terei que apresentar um pequeno seminário a respeito, estou relendo La Comedia Nueva, de Leandro Fernández de Moratín, peça teatral apresentada pela primeira vez em 7 de fevereiro de 1792 — segundo informações constantes da edição da obra que tenho em mãos (1).

É triste ver como alguns colegas de curso murmuram por ter que preparar (e apresentar) um seminário sobre qualquer obra literária do passado: “Ah, porque é muito chato”, “Ah, porque o texto é antigo e muito longo” ,“Ah, porque é um tédio” e pá-pá-pá. Acho que ninguém está ali obrigado. E por isso não entendo certas atitudes que considero extremamente infantis. Ou será que reclamações desse tipo fazem parte do repertório de estudantes (de qualquer matéria) e em qualquer  lugar do mundo?

Bom, o que me motiva a escrever este texto não é relatar as reações de meus colegas do jardim da infância, e sim mostrar trechos desta peça que, embora tenha sido escrita no século XVIII, a meu ver continua atualíssima em vários aspectos.

A comédia, que em termos pós-modernos poder-se-ia denominar meta-comédia, trata de momentos que antecedem o lançamento da comedia fictícia El Gran Cerco de Viena, primeira obra de um autor iniciante e desconhecido que decidiu tornar-se escritor da noite para o dia após ter ficado desempregado: “ (...) viéndose él así , sin oficio ni beneficio, ni pariente ni habiente, ha cogido y se ha hecho poeta.”, nos conta um dos personagens, o garçon do café em que se passa a história.

Dentre os personagens, além do garçon, vemos o autor da comédia e sua equipe, um grupo de bajuladores que só sabe despejar elogios ao talento do jovem autor e profetizar que a peça será um sucesso; e um único verdadeiro crítico, D. Pedro, um senhor que não é muito apreciado por sua sinceridade.

A meu ver, La Comedia Nueva é uma sátira, e ao mesmo tempo uma crítica severa, à forma como se fazia teatro e literatura na Espanha daquela época. A peça fictícia espelha, de certa forma, a recepcão que teve a peça verdadeira, um tipo de boneca-russa (2). Algumas falas interessantes reproduzo a seguir, mantendo a ortografia do original.

Partes de fala de D. Pedro, 1° Ato, Cena III:

Don Pedro explica a D. Antonio, um amigo, porque havia ido àquele café:
“ (...) A fin de mesa se armó una disputa entre dos literatos que apenas saben leer. Dijeron mil despropósitos, me fastidié, y me vine.”

Mais adiante, D. Pedro descreve seu caráter:
“No, por cierto. Yo soy el primero en los espectáculos, en los paseos, en las diversiones públicas; alterno los placeres con el estudio; tengo pocos, pero buenos amigos, y a ellos debo los más felices instantes de mi vida. Si en las concurrencias particulares soy raro algunas veces, siento serlo; pero ¿qué le he de hacer? Yo no quiero mentir, ni puedo disimular, y creo que el decir la verdad francamente es la prenda más digna de un hombre de bien.”

D. Antonio questiona o comportamento de D. Pedro:
“Aquí mismo he oído hablar muchas veces de usted. Todos aprecian su talento, su instrucción y su probidad; pero no dejan de extrañar la aspereza de su carácter.”

Ao que D. Pedro responde:
“¿Y por qué? Porque no vengo a predicar al café. Porque no vierto pela noche lo que leí por la mañana. Porque no disputo, ni ostento erudición ridícula, como tres, o cuatro, o diez pedantes que vienen aquí a perder el día y a excitar la admiración de los tontos y la risa de los hombres de juicio. ¿Por eso me llaman áspero y extravagante? Poco me importa. Yo me hallo bien con la opinión que he seguido hasta aquí, de que en un café jamás debe hablar en público el que sea prudente. ”

Mais adiante, D. Pedro critica a atitude de D. Antonio, que parece gostar de se divertir às custas das ilusões alheias:
“ (...) Yo no sé: usted tiene talento, y la instrucción necesaria para no equivocarse en materias de literatura; pero usted es el protector nato de todas las ridiculeces. Al paso que conoce usted y elogia las bellezas de una obra de mérito, no se detiene en dar iguales aplausos a lo más disparatado y absurdo; y con una rociada de pullas, chufletas y ironías, hace usted creer al mayor idiota que es un prodigio de habilidad. (...)“

Como o mundo está cheio de D. Antonios, gente que adora se divertir às custas da ignorancia ou ingenuidade alheias, não?

E para terminar, fala de D. Pedro (1° Ato, Cena VI) sobre a situação do teatro espanhol da época, e a quantidade ‘exorbitante’ de autores (imagine se vivesse hoje, nos tempos da internet... O pensamento da época me chamou muito a atenção, e quando livros ainda eram artigos raros e caríssimos!):
“(...) el teatro español tiene de sobra autorcillos chanflones que le abastezcan de mamarrachos; que lo que necesita es una reforma fundamental en todas sus partes; y que mientras ésta no se verifique, los buenos ingenios que tienen la nación, o no harán nada, o harán lo que únicamente baste para manifestar que saben escribir con acierto, y que no quieren escribir.”

Há também um personagem D. Hermógenes, um dos bajuladores que em quase todas as suas falas recorre a citações, o que D. Pedro reprova de maneira elegantíssima no trecho a seguir:

D. Hermógenes:
“Bien dice Séneca en su Epístola diez y ocho que...”

D. Pedro:
“Séneca dice en todas sus Epístolas que usted es un pedantón ridículo a quien yo no puedo aguantar. Adiós señores.” Sai de cena.

Deixo as passagens no original. Imagino que não será difícil para quem tem o português como língua materna entendê-las. Estas passagens da peça de Moratín podem ser recepcionadas de várias formas e não é minha intenção usá-las aqui para fazer discursos de qualquer tipo ou coisas do gênero. Li, gostei e achei legal compartilhar. Gostaria ainda de lembrar ao leitor não confundir as opiniões de Moratín com as minhas próprias, as quais não veiculo tão explicitamente neste texto, ainda mais porque as passagens abordam distintos e variados temas. Aos amantes da literatura em geral, quis trazer um pouco da obra deste autor espanhol, o qual vale a pena conhecer. Um pouco mais da sabedoria de outro grande escritor do passado, dessa vez um brasileiro, também sobre temas literários, no meu conto 'Sobre Necessidade de Aplausos'. No momento, acho que temos muito mais a aprender com os autores do passado do que com os mais atuais, mas esta é só mais uma opinião! :-)

Grata pela leitura, um abraço fraterno.

(1) J. Dowling e R. Andioc (eds) (1968): L. Fernández de Moratín: La Comedia Nueva y El Sí de las Niñas, Clásicos Castalia, Madrid.

(2) Para quem não sabe, uma boneca-russa é aquele tipo de bibelô que carrega uma réplica menor dentro de si mesmo e assim sucessivamente, até chegar a uma miniatura final.
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 21/12/2010
Código do texto: T2683992

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Para ter acesso a conteúdo atual aconselha-se, ao invés de reproduzir, usar um link para o texto original.). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Espera


Todos os dias esperava que ela passasse, mesma hora, itinerário, sempre o mesmo local. Seus pais achavam estranho aquela mania, porém ‘coisas da juventude os anos levam’. Como belas lembranças de carnaval ou loucos arrastões, tanto faz, o tempo leva, essa é sua função, levar. ‘Espere passar...’ as palavras da última mensagem não faziam sentido. Esperava uma resposta, indiferença, acesso de raiva talvez, mas nada semelhante àquele ‘Espere passar...’. O que teria ela querido dizer com aquilo? Ligar e insistir numa resposta seria um risco, melhor mesmo era esperar que ela passasse, todos os dias, num deles criar coragem e, então, perguntar o que quisera dizer. Com as mãos úmidas e o coração na boca viu que ela se aproximava, e naquela manhã estava só. Apressou o passo em sua direção. Desmanchou-se todo e ao mesmo tempo encheu-se de ânimo ao ver que ela sorria.
— Bom dia! —, disse ele, gentil.
— Bom dia. —, ela respondeu.
— O que queria dizer?—, perguntou num sopro, quase inaudível.
— O quê? —, ela perguntou, ainda sorrindo.
— A última mensagem. —, disse, tonto.
—Ah! — ela pareceu lembrar-se: — Para esperar passar...
— Que, como, aqui, hoje?! — ele não sabia onde pôr as mãos.

Então seu olhar ficou sério e, ácida, ela falou:
— Deixe passar pois não dá pra você, moço! — e baixando o tom de voz: — Foi isso o que eu quis dizer... Desculpe. — Deu de ombros e seguiu. Não olhou para trás nem esperou reações, muito menos a que veio.

A vida de ambos em frangalhos, retalhadas num ato sem pensar.

E ele ficou lá, parado, naquele dia, naquele local, esperando o tempo cumprir sua função. Em vão: não houve um só dia, um dia só, em que ela tenha deixado de passar. Numa outra dimensão, passaria... Era sua única esperança.


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Se deseja reproduzir este texto, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.

Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 04/12/2010
Código do texto: T2652564

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Trinta Contos de Euros & Três de Natal by Calaméo





Coletânea de contos "avulsos" publicados no Recanto das Letras entre 2008 e 2010.

Você pode baixar em PDF (tamanho reduzido) no Recanto das Letras ou ler no Calaméo.

Comentários e críticas construtivas são sempre muito bem vindos!

A seguir, mensagem de lançamento publicada no Recanto das Letras:



Trinta Contos de Euros e Três de Natal

Doze de novembro: ótimo dia para publicar uma nova coletânea de contos aqui no Recanto. Coletânea, aliás, pronta desde setembro, porém aguardando o dia certo para ser colocada no ar. Não se trata de marketing ou coisa do tipo, e sim de um presente, um presente elaborado com muito carinho para alguém muito, pra lá de especial! Novembro é um mês do qual gosto muito. Além de ser mês de aniversário de pessoas que amo, é o meu mês de aniversário aqui no Recanto.

Este ano, para comemorar, nenhum novo texto ou o trivial. Não, nada disso. Ao invés de publicar coisas novas me propus a pôr em dia visitas há muito tempo devidas, uma lista com mais de 253 nomes de colegas que pretendo visitar ainda este ano, e ler pelo menos um texto de cada um. Acontece que são muitos, muitos colegas mesmo, muita gente escrevendo aqui no Recanto e pela internet. Do objetivo traçado, 112 colegas já foram visitados de 17 de outubro pra cá. Fora os colegas que me visitam frequentemente, com os quais consigo manter um contato mais estreito. Pensa que é pouco?

Outro dia registrei a quantidade de textos publicados aqui no Recanto. 968461 poesias, 87901 poetrix, 56783 prosa poética, 62331 sonetos, 93189 crônicas, 68444 contos e 36229 artigos. Parei por aí. Um total de 1.373.338. Se eu tivesse 1 ano para ler todos estes textos, e com os números congelados, minha ração diária seria de uns 3.760 textos! Se eu não tivesse nada mais prioritário para fazer, capaz até de conseguir, porém...

Por isso se formam grupos por afinidade, ou ‘panelas’, como já ouvi por aí (e quase sempre num sentido pejorativo). Eu vejo a formação de grupos como algo natural. Basta observar como os elementos se juntam na natureza.

Muitas vezes reservo-me o direito de somente ler, sem deixar rastros ou comentários, o que não significa que eu não tenha gostado do que li. Comento apenas quando tenho algo importante a dizer, acrescentar ou questionar, ou quando o impulso é maior. Sei lá, já há tanto lixo sendo produzido diariamente na internet, pra quê eu, logo eu, iria querer contribuir, aumentando a lista de opiniões vazias que circulam por aí? Acho que, com as palavras, neste sentido, devemos ser econômicos. E por isso mesmo vou começando a fechar o texto por aqui. Já falei demais!

Bom, a coletânea Trinta Contos de Euros e Três de Natal foi montada para uma pessoa em especial, como já disse, o que não me impede de compartilhá-la também aqui. A idéia é oferecer uma opção a mais de acesso aos textos. Sei que o formato impresso ainda é preferido por muitos, no entanto, não sou de subestimar o formato eletrônico.

Os E-livros que até agora publiquei foram pensados para ter um aspecto caseiro, digo: da produção do texto ao design e passando pela distribuição, tudo feito à mão, num espírito artesanal, e não com os recursos mais adequados, pois assim seria fácil demais (para isso existem os profissionais e os processos industrializados). Tudo o que tenho feito até aqui tem sido regado por um imenso prazer de brincar e um desejo de fugir das produções de massa. Nem todo mundo entende isso, algumas pessoas dão mais valor a objetos produzidos em série do que a objetos de própria confecção.

Nesse ponto, meus leitores (aos quais sou muito grata!)  jamais poderão dizer que não penso neles. Pois cada decisão (no texto, no design ou na confecção) os teve em primeiro plano. Isso não garante que o produto final esteja livre de defeitos, apenas que foi feito com cuidado e muito amor. Espero que gostem!

Um abraço fraterno.
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 12/11/2010
Código do texto: T2611528


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domingo, 7 de novembro de 2010

A Pane

Acordou sobressaltado. Precisou de alguns segundos para recordar onde estava. Moveu o mouse para reativar o sistema. Mirou a câmera presa ao monitor, à sua frente. Trazia ainda marcas do teclado num dos lados do rosto, e no outro um rastro branco, de baba. Não soube por quanto tempo estivera dormindo. Esperara, ávido, por  respostas, ou melhor: reações. Precisava ir ao banheiro. Apressou-se, não quis perder tempo lavando as mãos. Quando voltou, a tela exibia o navegador, ainda a última página: 14569987647 amigos online. Atualizou-a. Pânico! Verificou programas e aparelhos, correu ao telefone fixo: ‘Mudo também?!’, Vasculhou o bolso da calça: ‘Smartphone fora de área? Impossível!’ Reiniciou todo o sistema e ‘Ainda sem conexão?!’. Alguma coisa acontecera enquanto dormia. Tinha que fazer algo, não podia ficar alí parado, vendo seu mundo ruir. Passaram-se dias, e nada. As reservas de comida chegaram ao fim. Não entendia o surto, nada funcionava: internet, telefone, TV a cabo, nem mesmo o termômetro digital, lá fora. Energia elétrica ainda havia: ‘Uma esperança?’. Percorreu, desolado, a longa lista de amigos, agora sem qualquer serventia. Até para pensar necessitava de auxílio. Buscou em desespero, na lista de programas, um editor que funcionasse sem a rede. ‘Viva os TXTs!’ Daquele desastre, tentava ainda fugir à terrível idéia de, pela primeira vez em anos, ter que pôr a cara lá fora, ter que sair e encarar pessoas — ‘Ai que horror!! Pessoas lá fora...’ —  Se houvesse alguém, pensou. Não queria mais pensar. Fechou o editor e, naquele momento, desejou com ardor ser um pixel, uma partícula qualquer que não tivesse sentido quando internet non c’è. Antes de desistir, comando final: num surto de coragem puxou os fios. Escureceu.



“Non c’è” (Italiano): usa-se para expressar ausência ou inexistência de algo ou alguém.


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2010
Código do texto: T2601826


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sábado, 16 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Corazón tan blanco


‘Corazón tan blanco’, livro de Javier Marías, o último que acabo de ler. Experiência literária como poucas este ano: uma tensão boa do começo ao fim, surpresa a cada novo capítulo, nova história, novo trecho; um trecho puxando outro, relembrando, repetindo sem de fato repetir, Leitmotiv encadeando frases, feitos e pensamentos. Terminei de lê-lo ontem à noite e durante a leitura me peguei várias vezes dialogando com o texto, tentando antecipar o final, em vão. Branco: pureza ou covardia? Em sonho, enveredei por vários dos caminhos sugeridos no fim, sem me dar conta de que sonhava, até acordar.  Muitas das passagens ainda ecoam em meus ouvidos, sem qualquer esforço para mantê-las. O texto canta sem ter rima. Sei disso pois li vários capítulos em alta voz, no compasso da pontuação e sem ignorar pausas. Num texto, assim como na música, pausas têm significado e muita importância, devem ser respeitadas! E Marías soube usá-las com louvor -- palavras, pausas, pontuação -- para dar cadência e fluidez ao texto, meu Deus! Obra de arte. A história é bem orquestrada. Em alguns momentos até pensei: ‘Pra que raios o narrador está me contando isso’ e as respostas foram surgindo, no tempo certo, e sem antecipação do final, que segue aberto, e satisfaz -- talvez pela idéia de que toda história é infinita, segue sempre, depende da forma de contá-la.

Um pouco sobre a história: Juan é um intérprete que se casa com Luisa, uma colega de trabalho. Desde o dia de seu casamento começa a sentir um crescente mal-estar, um pressentimento de desastre por ir descobrindo, sem querer, coisas que desejava jamais ter sabido.

Este livro foi lançado em 1992. Li a terceira edição em Espanhol e não sei se já foi traduzido no Brasil. Cheguei a ele por recomendação de um velhinho gente boa e que entende muito de Literatura, um contador de histórias, também histórias da vida real, História da Literatura.

Para terminar, valeu a pena o dinheiro investido neste livro; e não foi caro. Na lista de livros lidos este ano, coloco-o com cinco estrelas, pontuação máxima do meu banco de dados, ao lado de El Amor en los Tiempos del Cólera, de Gabriel García Márquez. Leia-o também; se gosta de boa literatura, dificilmente se arrependerá.

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Se deseja reproduzir este texto, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 14/10/2010
Código do texto: T2556338



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Escrever por quê?

„Was ich schreib, muss ich essen, was ich nicht schreib – frisst mich.“

Herta Müller, Prêmio Nobel 2009 de Literatura.

“O que escrevo, tenho que mastigar e engolir, o que não escrevo - me devora.”

Tradução livre: Helena Frenzel.


Também publicado no Recanto das Letras em 14/10/2010
Código do Texto:  T2555472



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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Um Dia de Feira


É dia de feira,
Quarta-feira
Sexta-feira
Não importa a feira
É dia de feira
Quem quiser pode chegar...
” (1)

Foi mais ou menos num clima bom de outono, ontem, e num domingo, que aproveitei um convite para a Feira Internacional de Frankfurt. Confesso que nunca havia estado numa Feira do Livro com tamanhas proporções; me perdi lá dentro, contei uns 10 prédios! Usei várias vezes o serviço interno de micro-ônibus pra me locomover.

Vi quase de tudo: estandes de vários paises, filmes, desfiles de personagens fantásticos, mesas de escritores, o livro mais longo e pesado do mundo, etc. Convidado de honra deste ano foi a Argentina, parte que escolhi para visitar com mais atenção. As opções eram tantas e foi difícil fechar um programa que, ainda bem, se podia personalizar no site da Feira na internet.

Ajudou bastante ter me programado antes pois, na prática, gastei ainda um certo tempo para “me achar” no meio de todo aquele espaço, mesmo portando um mapa -- confesso que sou ruim com mapas, embora assuma o papel de navegadora muitas vezes, ao explorar novos lugares. Devagar e com calma se consegue tudo!

Pois bem, ponto alto do dia foi uma mesa de escritoras sobre o tema Mulher e Poder na Argentina nos últimos 200 anos. Questões de Gênero (Gender) me interessam muitíssimo e a mesa foi excelente! Participaram dela as escritoras Graciela Araóz, Ana María Shua, Elsa Drucaroff e Luisa Valenzuela. Desconhecia todas, mas fiquei com muita vontade de conhecê-las depois de presenciar esta mesa de discussões. Para isso serve uma Feira de Livros: aproximar leitores, livros e autores, não?

As discussões foram em Espanhol, com tradução simultânea para Inglês e Alemão. Vendo o esforço dos intérpretes nas cabines, lembrei do protagonista de 'Corazón tan blanco', romance de Javier Marías que, desde a primeira linha me ganhou e até agora está me proporcionando uma leitura magnífica. O protagonista é um intérprete e revela certos “segredos” desta profissão que, para ele, praticar por toda a vida faz enlouquecer. Haja responsabilidade nisto: o futuro do mundo na boca de alguém!

Sim, mas de volta à Feira, visitei também estandes brasileiros, não sei se todos. Muitos livros (já antigos) estavam só em exposição, não à venda. “Por causa dos direitos”, disse uma atendente. Eu bem poderia ter tentado saber mais sobre os porquês, já que se tratava de uma associação de editoras brasileiras, contentei-me no entanto com a resposta e segui visitando. Para matar a saudade do Português comprei alguns livros num estande português.

“Adeusssss!”, disse-me a vendedora. “Português de Portugal; no Brasil se usa dizer ‘Tchau’”, falei para minha acompanhante, em Alemão. “Então Ciao!!”, nos disse a ‘vindidora’ com um sorriso. Estou contente com o poeta e o ensaísta portugueses que trouxe para casa. Esperava pagar menos pelos livros numa feira, mas acho que foi em conta...

Impressões rápidas e finais: A Feira do Livro me pareceu, acima de tudo, um evento puramente comercial, ainda oferecendo oportunidades para estreitar o triângulo leitores, autores e livros, bem como espaços para encontros, discussões, promoção de livros e arte em geral. Prefiro eventos menores e mais aconchegantes, como mesas de discussões em pequenas livrarias ou cafés literários. Bom, mas esta é uma questão pessoal. Gostei muito das mesas e apresentações que tive o privilégio de presenciar. Hoje cedo, ouvi no noticiário sobre a satisfação dos organizadores: um sucesso em todos os setores,  279.325 visitantes em cinco dias.

Senti-me privilegiada por ter podido participar este ano. Quem sabe não ganho outro convite para 2013, quando o convidado será o Brasil? E se não ganhar, faço questão de pagar (pelo menos um dia) pra ir lá ver, quando espero encontrar conhecidos e muito mais autores e livros (bons e novos!) representando o país.

(1) – Trecho de A Feira, O Rappa.

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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 11/10/2010
Código do texto: T2549854

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sábado, 9 de outubro de 2010

Impressões: Demais!!



Arte e Literatura

Aqui vão, dentre outras informações, algumas impressões (minhas) ao ver um documentário sobre o Impressionismo, um movimento artístico que mudou a forma de muitos verem o mundo, as artes e as cores.

Sou fã dos impressionistas, sempre fui, e passei muito tempo sem sabê-lo. Um movimento que, indo totalmente contra o pré-estabelecido na época, final do século XIX -- momento em que arte, para muitos, era algo certinho, imitação o mais perfeito possível do mundo real (bom, pelo menos do que muitos viam como real) --, levaria à produção de muitas das obras mais belas da história humana, e revolucionaria o conceito de arte, em geral.

Fato é que os impressionistas, a meu ver, buscaram as formas do feio, talvez por isso tenham sido interpretados como quem tenta tirar um sarro com o real, e sem caricaturá-lo. Por que o corpo da modelo nua não podia ser de tons pastéis? E por que não lilás, como as veias circundando os seios desnudos de algumas das moças de Renoir? Cézanne, Monet, Manet, outros mais. Amei a pintura de Monet desde que topei com ela, no primeiro instante, amor à primeira vista. Nem sabia o que era Impressionismo, só sei que me senti capturada por aquela forma de ver o mundo, as águas, a luz e as cores.

Como disse mais ou menos Monet, o “inventor” das primeiras técnicas que viriam a ser chamadas de impressionistas: um pintor vê, antes de formas, apenas cores, e são essas cores, esses pigmentos, o que deve registrar.

Os membros desse movimento sofreram um desprezo muito grande por parte da sociedade e das academias de arte da época, um boicote enorme (quase massacre) às exposições e ao trabalho desses artistas. E isto eu desconhecia. Tanto que alguns, como Renoir, sucumbiram à pressão e voltaram ao convencional; afinal, artistas precisam comer. Já outros, mesmo sem chegarem a ter glória em vida, seguiram seus ideais. O regente do coral feminino do qual participo sempre diz que o gosto popular não pode servir de critério para um artista.

Phillipe Petit, artista e equilibrista francês, recebeu um Oscar por um documentário. Na feira literária de Mantova (Itália, 2010), ao ser perguntado sobre os impactos deste prêmio em sua vida, disse uma coisa que vale a pena guardar, que foi mais o menos assim: “Prêmios não devem interferir na vida e obra de um artista. Significam reconhecimento, nada mais. Minha vida não mudou por causa deste Oscar.”

Não resisto a especular sobre o que estaria pensando Vargas Llosa agora que acabou de receber o Nobel de Literatura, principalmente sobre a enxurrada de artigos sendo publicados, falando bem ou mal da qualidade literária e ideológica de seus escritos. Se eu tivesse ganho 1 milhão de EUROS por certo estaria muito feliz, independente de quaisquer opiniões. Imagine só quanta gente eu poderia ajudar! Bom, voltando à realidade: alegro-me muito mais pelas coisas interessantes que aprendo a cada dia, sobre arte, cores e impressionistas, artistas que marcaram para sempre minhas formas de enxergar. Como César Manrique, penso que ser artista significa, em boa parte, aprender e ensinar a ver.

Ah, novidade legal (pelo menos para mim!): O Brasil será o convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt em 2013. Este ano, 2010, está sendo o ano da Argentina. É o mercado editorial mundial voltando-se para a América Latina, oportunidades para os estão preparados ou se preparando para agarrá-las, não? Se isto é sorte, sorte aí Brasil!

Um abraço fraterno.

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Se deseja reproduzir este texto, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.

Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 09/10/2010
Código do texto: T2546315



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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Papel em Z









Dobrado
Parte pedaços
Recicla
Em branco barato
Denso
Pesado em grãos
Padrão
A4 retrato
Paisagem
Gravura tinta
Borrão
Pinturas croquis
Passado
A limpo nos pingos
Pontos linhas
Nos iis
Exprime
Ideais sentidos
Jogado
Amassado no lixo
Perdido
De novo achado
Salvo
Com exclamação


Criar com absoluta liberdade, sem medos e sem receitas, conforta a alma e abre um caminho à alegria de viver.”

César Manrique, para mim um artista completo e admirável.

Na poesia deve-se ir sempre além do dito. O leitor tem que proporcionar a pólvora para que as palavras disparem seu significado.” – seus significados, adiciono eu.

José Antônio Marina e Maria de La Válgoma – La Magia de Leer, Debolsillo, 2007, Página 30.

Citações traduzidas livremente (por Helena Frenzel) do Espanhol para o Português.

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Se deseja reproduzir este texto, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 08/10/2010
Código do texto: T2544702

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Guerra E-maildiática

“Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão“

Trecho de Meu Caro Amigo, Chico Buarque e Francis Hime.


Nesse momento de TPE (Tensão Pré-Eleitoral) publico aqui um e-mail que recebi ontem de uma grande amiga. Que sirva a reflexões e mudanças de atitude, espero. Trata-se de uma opinião que, a meu ver, merece ser divulgada. Optei pelas iniciais no final para preservá-la.

                                          * * * 

Assunto: CASAMENTO GAY + ABORTO

Bom, cansada de receber uma série de e-mails especulativos sobre os candidatos à Presidência, resolvi manifestar minha opinião e deixar aqui o meu apelo.

O último que recebi, e que apaguei do meu e-mail, foi um afirmando sobre a legalização do aborto e do casamento gay. Este boato está levando pessoas, padres e pastores ensandecidos a pedirem para seus fiéis não votarem na candidata Dilma.

Depois que terminei de ler aqueles absurdos, parei uns minutos para refletir e me veio a seguinte pergunta: sobre este assunto, vocês sabem qual a opinião dos deputados federais e senadores que vocês elegeram?

Pois é, se vocês não sabem, agora já era! Até onde eu sei, presidente nenhum pode acordar de manhã e dizer: “A partir de hoje está legalizado o aborto!”. Para uma lei dessa natureza ser assinada precisa antes ser aprovada por esses distintos. Sendo assim, não importa a opinião do presidente, pois, ao final, quem decide a aprovação dessas leis são os deputados e senadores que nós elegemos levianamente.

E-mails como estes não agregam nada de valor e só servem para instalar o terror, típicos dos governos ditatoriais. E demonstram o quanto a nossa hipócrita sociedade ainda se baseia em preconceitos e especulações para decidir o seu voto. 

Então eu deixo aqui o meu apelo. Antes de repassarem esses e-mails, desarmem-se de preconceitos. Analisem a real intenção deste! Procurem saber como funciona a máquina do governo. Leiam, e leiam muito sobre seu candidato, seja ele X ou Y (literalmente!). Se vocês quiserem convencer alguém a votar em seu candidato, mandem gráficos e números mostrando o que ele fez de bom e qual é o plano de governo. E, desconfie sempre de campanhas difamatórias e preconceituosas. Esse pode ser um sinal de que o candidato está apelando e de que não deve ter nada mesmo para mostrar. 

Caso não tenham nada melhor para me enviarem, agradeço se deletarem o meu e-mail destas listas sem fundamento, pois minha caixa postal anda entupida de e-mails que até agora nada influenciam minha escolha de em quem votar. 

Obrigada!

IC.

                                           * * *

Reproduzido com a devida permissão, naturalmente.


Também publicado no Recanto das Letras em 08/10/2010
Código do Texto:  T2544601



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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Conto Companheiro

Cara, fiz de novo! Não tomo jeito...

Mas por que tinham que me perguntar, logo eu que não sei mentir? Tive que dizer o que pensava do conto, oras, tudo pra não confundir. Contrariei então minha decisão, não dar pontos em contos terceiros. O resultado, porém, foi bom: compreenderam meu momento primeiro.

Sinto, mas um conto que do meio já revela o fim, venhamos e convenhamos, só posso considerar um conto ruim. Até mesmo EU não escapo a este critério, pois “a verdade será sempre a verdade, dita por Agamenon ou seu porqueiro”. Pode até estar bem escrito, estruturado não tal mal, mas se em nada surpreende nem incomoda no final, sei lá, algo assim sem sal sem isso só pode ser um conto mau... Cara, eu sou mau!!

Você pode até pensar que sou doido ou masoquista, fato é que A-D-O-R-O  quando contistas me maltratam assim, digo: enrolado na pele do leitor,  levo chute no traseiro e fico sem saber o que se passou, mas depois entendo o companheiro. Ah, esqueci dos tapas. E nada de beijos se o conto não é de amor.

E tem que ser um golpe certeiro, mas tão certo sem dar tempo de esboçar outro furor, que não seja abrir a boca, de espanto, babando prazer pra no fim: “Cara, que conto legal! Tô vendo estrelas contadinhas!”, algo que eu chamo de ápice literário, ou melhor: clímax – pra não chocar os enrustidos – nada que ver com idade ou sexo, tá?, algo metafísico.

Sensações assim tive ao ler Machado, Cortázar, García Márquez, também autores outros, magistrais. Acontece, vez ou outra, de eu sair por aí meio louco, caçando contos que me digam algo pra ler. E na maioria das vezes sem procurar encontro, contos que me dominam e apanham de jeito, jeito de texto que sabe prender!

Esse tipo de conto luto pra ser. E desta sina contada nem penso em fugir... E a paga de tudo isto? Imenso prazer em ler e jogar. Coisa boa é apanhar de um conto e quem tiver seus contos bestas (como eu de quando eu vez) sinto muito, vai ter que me entender! Sou um conto malandro, sincero e companheiro.

Cara, eu fiz de novo! Será o santo conto que eu não tomo direção?!


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Se deseja reproduzir este texto, favor respeitar a licença de uso e os direitos autorais. Muito obrigada.


Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 07/10/2010
Código do texto: T2542848

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Memórias de Maria Teresa - Num Shopping

“Vamos às compras e atestarei quem és. Essa é velha!”, brincava Teresa ao recordar de certa vez, em viagem, quando se viu compelida a adquirir um traje, justo um dos que escolhera consciente não pôr na mala.

“A vida da gente já é cheia de bagagens, não? Pra quê piorar? Menos é mais!”. Peça básica, terninho, coisa que certos entendidos chamam de ‘tailleur’. Teresa não é disso, de moda, muito menos de shopping, ato e lugar.

Não podendo afastar de si aquele ‘compre-se’ resignou-se, foi, e lá chegando, no shopping, acionou cronômetro: “Mais de uma hora não vou agüentar!”. Lojas para crianças, jovens, artigos esportivos e "Livros! muitos livros!". Resistiu à insistente tentação. “Volto mais tarde”, consolou-se ao passar pela livraria, tendo que virar a cara para não olhar.

Uma piscada era ceder, uma olhadinha que fosse e a chance de ser fisgada por qualquer título era alta que batia no teto, e seguia louca em qualquer direção, e sem vontade de parar. “Ah, uma boutique! Salva pelo canto!”. Ali era bem capaz de encontrar rapidamente o que queria, logo teria tempo para ir descontar os pecados na livraria.

Preto. Experimenta. Serve direitinho. Só faltava o preço. “Quê?! 3.000 Putos?!” Procurou inflação, tecido, marca, uma costura dourada que fosse para justificar o exagero. Nada. E não escondeu da vendedora a reação. No seu banco de experiências nenhuma situação idêntica: um traje na mesma categoria, ainda que portando marca, e naquele valor. Para não dizer que se enganava, converteu o preço para outra moeda. “Assim não pode, assim não dá!”

Mesmo necessitando do dito, odiando shoppings e podendo pagar, Teresa nem pensou em levar o terninho para casa, digo: hotel. Disse-me que se lembrou dos professores, ganhando menos de 500 Putos por mês. Não titubeou em dar cabo àquele tormento. "A lógica daquele preço, e de quem aceitava pagar por ele, só podia estar na alienação da vida e de valores. E era uma cidade pobre, acreditas?! Entende-se bem o por quê... O quê teria aquele traje que justificasse um preço tão fora do real?”

“Muquirana, mão de vaca!”, ouviu a vendedora cochichando entre dentes para uma colega. Devolveu o terno, agradeceu o atendimento e virou-se para sair. “What you don’t have you don’t need it now... Forever and ever!”, foi cantarolando a caminho da livraria. Ah! e como não era um evento nudista, foi vestida de si mesma, jeans e camiseta, com uma consciência muito mais limpa e sentindo-se muito mais feliz.

(1) “What you don’t have you don’t need it now...”
      Trecho de Beautiful Day, U2.
(2) “Forever and ever!”
      Trecho de Hallelujah – G F Handel


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 07/10/2010
Código do texto: T2542357

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Da Prisão

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Homenagem à poesia de José-Miguel Ullán.


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 06/10/2010
Código do texto: T2540900

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Últimas 'más allá' de Fufu Lalau

Aviso aos navegantes!








Por ora: revisando escritos; também a vida... - Comentários no Recanto reativados.



A quem me visita durante este período off para manutenção, muito obrigada.
Um abraço fraterno, 'inté', saudações! :-)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O Engano

Enganar-se é humano, assombrosos são os efeitos colaterais.

-- Sua consulta não è às doze, e sim às doze E MEIA -- disse a recepcionista.
-- Tem certeza, minha filha? -- perguntou Edite.
-- E não ligaram pra senhora não? --  disse a moça num piscar, e por cima dos óculos.
-- Antes de ontem alguém me ligou daqui, sim, mas não recordo ter ouvido doze E MEIA.
Sem mover os olhos do monitor, a moça sugeriu:
-- Vai ver a senhora não entendeu O MEIA.

Sim, pode ser; mas por que ela não entenderia, meu Deus? Estaria escrito em sua testa que tinha problemas pra ouvir, ou entender?

-- Olhe, antes de ontem eu liguei para cá confirmando hora e dia, a pessoa que me atendeu disse que estava tudo certo. Ontem recebi nova chamada, confirmando a consulta para hoje... -- quis perguntar se a ligação não havia sido feita por uma outra funcionária, desistiu -- e não me lembro de ter ouvido doze E MEIA.
-- É que agora estão todos numa operação, parece que vai levar uma meia-hora pra acabar. Como a senhora está aqui no centro... bem poderia aproveitar o tempo pra ir ver as lojas, tomar um café ou pode esperar aqui mesmo, se a senhora quiser, claro.

E quem disse que ela gostava de café ou de vitrines? Se bem que...
-- Está bem, volto em meia hora.
-- Isso, em quarenta minutos! -- disse a moça apressadinha, a cara colada no monitor.

Não lhe agradava fazer compras, mas já que tinha que esperar aqueles TRINTA minutos, melhor era aproveitar. Numa loja, na seção de DVDs, concluiu entediada que ali não havia nada que lhe interessasse. Com certos filmes não valia a pena gastar nem tempo, dirá dinheiro. Olhou para o relógio e, contente com a passagem do tempo, pôs-se a caminho do consultório. Cinco minutos adiantados eram quase nada. Subiu o elevador, tocou a campainha e a porta não se demorou a abrir. A colega da recepcionista olhou-a, surpresa, e esta, como estava falando ao telefone, nem a viu entrar.

-- Obrigada, Seu Sandoval, disse a recepcionista antes de desligar.

Coincidência: nome de família igual ao meu, pensou Edite.

-- Sua consulta não è às doze E MEIA, e sim às três, disse a recepcionista, sem olhar, voltando a moldar a cara à tela do monitor.
-- Como assim?!, falou Edite, exaltada.
-- Dona Maria Sabóia é a senhora, não?
-- Meu nome é Edite Sandoval. -- disse séria.

Pelos olhos arregalados da mocinha, e o tamanho do mea-culpa que se seguiu, a colega se viu obrigada a interferir:
-- Dona Edite!, já lhe esperávamos, logo a senhora, que não costuma falhar... Só que sua consulta era às doze, a senhora esqueceu?
-- E eu estive aqui às DEZ para as DOZE! A mocinha aí me aconselhou a ir dar uma volta na cidade pois a consulta seria MEIA hora depois!

A colega olhou para a recepcionista, meio desconcertada, justo no momento em que esta soltou um:
-- Ai Meu Deus, foi a senhora?! -- mãos em concha tapando a boca oval  -- Até liguei pro seu marido pra saber por que a senhora não havia chegado... -- voltou a se mea-culpear, mas foi desencorajada por um grito, misto de medo e inquietação:
-- Meu Deus! Por que você fez isso? Por que você fez isso?? -- mãos na cabeça: -- Pai, perdoai-a, ela não sabe o que fez...

A colega olhou para a moça e disse algo numa língua estrangeira, o que a Edite soou como repreensão. Sabendo porém como as línguas são matreiras, preferiu não tirar conclusões. Não fosse a mocinha perder o emprego por causa disso, pensou, afinal de contas errar é humano... E então, falou a colega, -- Foi um engano, Dona Edite, desculpe. Por aqui, por aqui....

Edite se sentiu num enredo de conspirações, sem saber ao certo com que tipo de final. No entanto, deixou-se guiar até a sala de tratamento. O que será estava havendo ali naquele dia? Logo essa gente, que é sempre tão organizada...? Êpa! Antes de mais nada tinha que ligar para o marido e tentar desfazer a confusão.

Como tecnologia vale mais quando menos se precisa dela, para o mal dos pecados não teve como o marido atender o celular, só dava na caixa postal. Edite deixou mensagem rápida explicando o mal entendido e durante a sessão teve que desligar o seu. A doutora até puxou conversa, mas as sombras daquele estranho engano haviam tirado de Edite a vontade de sorrir. Pensava, resignada, no marido e, pior ainda, no que ele poderia estar pensando de toda aquela confusão: que nessa idade agora dera para mentir? Que tinha ali a prova? Que o estava enganando e ele já sabia? Que fora pêga com a boca na botija? Que só queria agora ver o que ela iria inventar daquela vez, bandida? Edite conhecia bem o marido e sabia que não adiantava argumentar. Estava armado o circo, selada a confusão e ateado o destino. Terminou a sessão daquele dia. Ao passar na recepção para pagar a conta, no meio de mais uns mea-culpas, a mocinha lhe perguntou se desejava marcar a próxima consulta.

-- Pelo sim, pelo não, veja aí um dia, minha filha.
-- Dia 16 do mês que vem, de novo às doze E MEIA está bom pra senhora?
-- Está, minha filha, está... -- respondeu Edite -- e se não estiver mais até lá... bem, ligo antes para confirmar, como sempre... a menos que algo me aconteça! -- completou.
-- O que é isso, Dona Edite, não vai lhe acontecer nada não! Devemos pensar sempre positivo -- disse a mocinha emendando seu melhor sorriso de gato-zebra: cheio de dentes cerrados, branquíssimos!

Para não encompridar conversa, até mesmo porque não fazia o menor sentido, Edite pegou o recibo, o lembrete da próxima consulta, despediu-se e saiu. Daquela vez, ao invés de dizer “Até a próxima”, como sempre fazia, disse, timidamente, “Tchau”. E aquela foi, para as duas, de fato, um último engano, a ÚLTIMA vez.




Nota: este conto é fruto da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes e situações na vida real é pura coincidência.

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Revisado em 18.09.2010
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 09/09/2010
Código do texto: T2486917

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domingo, 5 de setembro de 2010

Perguntinha...

Será que os grandes (autores) já nasceram pensando que eram grandes, ou se tornaram grandes pois nunca chegaram a pensar assim?


A quem me ajudar a responder, muito obrigada.
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 05/09/2010
Código do texto: T2479243


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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um texto também para mim

Meu colega Ailton e suas reflexões em Ler literatura...
Independente de ter sido resposta a um comentário meu, recomendo este texto pois gostei muito e concordo com as idéias. Dê uma conferida!

Um abraço fraterno.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estudar na Alemanha - A quem interessar possa...

Pra quem já está aprendendo (ou deseja aprender) Alemão, uma temporada na Alemanha é indispensável. Aliás, fundamental para aprender um idioma é estar imerso em lugares onde o dito seja 100% usado. Pode-se até aprender idiomas passando a vida inteira em salas de aula, ou estudando sozinho. Para mim, no entanto, práticas de imersão não podem faltar.

Pela minha experiência com o Alemão, diria que de 3 meses a 1 ano dá pra se aprender muita coisa, não só do idioma, também do povo e do país. Não conheço outra escola que não uma do Goethe-Institut, a que freqüentei. Só posso dizer que o método deles funcionou comigo, e muito bem. Jamais esquecerei dos seis meses de curso intensivo, das primeiras situações “pra-valer” em Alemão.

Comecei a estudá-lo ainda no Brasil, em Brasília, com uma professora particular alemã-brasileira que se tornou minha amiga. Com ela, aprendi as primeiras regrinhas de declinação e “muchas otras cositas más”. No entanto, quando desembarquei em Frankfurt, pela primeira vez, tive a sensação de que não entendia nem ao menos “Guten Tag!” (Bom dia!). Vai ver pelo pânico. Só sei que essa sensação de “num tô intendendo nada” me perseguiu por um bom tempo, mesmo depois dos seis meses de curso na Alemanha.

Pelos anos que vivo aqui, hoje sinto-me bem mais segura, mas não me atrevo a dizer que domino essa Língua. Compreendo-a e consigo me comunicar muito bem, mas produzir textos em Alemão ainda é um problema. Meus textos, por mais que me esforce, ainda têm muito “Akzent” (sotaque estrangeiro, como se diz por aqui). E talvez esse sotaque eu não queira perder jamais, pois é parte da minha identidade cultural.

Vir para a Alemanha sem saber “nadica de nada” da Língua, com muito ou pouco Inglês na bagagem, até é possível, mas não recomendaria. Nem todo mundo aqui sabe falar Inglês e, diferente de outros lugares, saber Inglês não parece ser obrigação, nem mesmo nas repartições. Grandes centros como Frankfurt, Berlim, Munique são exceções, claro. Resumo da ópera: com Inglês “a pessoa até se vira”, melhor mesmo, porém, é saber um pouco de Alemão.

Em geral, estudar na Alemanha pode ser uma experiência muito positiva em todos os níveis: cursos de verão, graduação e pós, um sabático ou, simplesmente, uma visita pra ver como as coisas funcionam. A Alemanha é um dos destinos mais procurados por estudantes de várias partes do mundo, talvez pelas taxas estudantis, muito mais baixas se comparada a países como Estados Unidos e Inglaterra.

Como me disseram certa vez, para estudar se consegue visto sem problemas, já para trabalhar... Como em outros países industrializados, a Alemanha também luta contra o desemprego, e por aqui a grande maioria dos profissionais possui muito boa formação. Não disse que é impossível conseguir visto para trabalhar, e sim que é muito difícil, dada a conjuntura atual do país. Se bem que gente que nasceu de quina para lua tem em todo lugar e, quem não arrisca não petisca, não?

Em suma, quem deseja vir estudar “pras bandas de cá” deve tentar se informar muito bem. Mais indicado é buscar contato com pessoas que vivem ou já viveram no local-alvo para não cair na armadilha de velhos e novos estereótipos. Há vários brasileiros espalhados por aqui, e muitos são estudantes.

Sempre fui muito bem tratada, o povo é, em geral, amável e bem-educado. No inverno pode fazer muito frio, é verdade, mas se pode agüentar. E para que não pairem dúvidas quanto à receptividade das pessoas, não há nada em mim, fisicamente, para que me confundam com uma “típica” alemã, ou seja, não sou branca, loura, muito menos alta, tenho sotaque e olhos que não são azuis.

Mais informações sobre Viver e Estudar na Alemanha no site do DAAD, do Instituto Goethe ou de outras instituições alemãs. Em geral, ao que parece, as cooperações Brasil-Alemanha têm sido muito produtivas. Por ora, é isso aí!


Um abraço fraterno :-)


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Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 01/09/2010
Código do texto: T2471704



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domingo, 29 de agosto de 2010

Cotidiano

Quando acordou tocava no rádio o Chico: “todo dia ela faz tudo sempre igual me sacode às três horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã”. Levantou-se, tomou banho, café, lavou os dentes, saiu e foi esperar o ônibus. Coisa difícil, vaga pra estacionar; bom ter deixado o carro em casa, sem falar que, fora a fila dos ônibus, nenhuma outra parecia andar. No escritório, bateu o ponto, começou o trabalho. Nova lista de protocolos para preencher. Conferiu agenda, organizou tudo. Caso estorno de cartão, o primeiro. Quinze minutos antes do almoço, chega a colega Rosa e o espera para saírem. 'A Lazanha do Toni hoje está ótima.' 'Então vamos lá!' 'E o que fizeste hoje?' 'Mais protocolos, pra variar...' Ela sorriu: 'Normal.' Uma hora depois, volta do almoço, de volta ao trabalho: 'No final do dia passo pra te apanhar' -- pegaria carona com a Rosinha. 'Outros dez casos de uso... Coragem, vamos lá!' Final do dia, chegou Rosinha. 'E aí, tudo pronto?' 'Peraí, deixa eu arquivar...' Abriu a porta do armário e uma surpresa o esperava: uma pasta com 20 protocolos, iguaizinhos aos de hoje, todos lá, arquivados. Mesmos comentários, mesmas descrições... 'Penso sempre igual?', cogitou. Antes de pensar que enlouquecia, leu o bilhete e seguiu as instruções: 'Para não fazer tudo de novo, otário, não esqueça de colar este bilhete na capa da agenda antes de sair. "Eu sou você amanhã!" e você já viveu esta história! Um abraço e até a próxima.' Falou pra Rosinha: 'Fiz de novo! Me lembra amanhã de voltar ao neurologista?' Ela o olhou, estranhando, e só disse que tudo bem.




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Revisado em 17.09.2010
Helena Frenzel
Publicado no Recanto das Letras em 29/08/2010
Código do texto: T2465948




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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tomar...

leite, banho, chá de cadeira
vergonha, surra, satisfações
na cara, no ouvido, erva cidreira
jeito, consciência, uns safanões

notas, tempo, vinho e sangria
“tento”, coragem, remédio, carão
benção, cerveja, pílula e pinga
rumo na vida, café, direção

Tome!

                  * * *

Da série
‘Poesia básica trivial e necessária - para mim!! -
Verso de cada dia nos dai hoje, sim?’
Helena Frenzel
Publicado também no Recanto das Letras em 24/08/2010
Código do texto: T2456867




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